A noite mais solitária de todas

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Touya não sabia muito bem o que estava fazendo.

Ele estava vivo, ainda demorava para raciocinar. Depois de tantos anos no escuro, ouvindo vozes distantes e se perdendo em sua culpa e em seus arrependimentos, ele abriu os olhos e acordou para o mundo real.

E o mundo real era uma merda, Touya acabou se esquecendo um pouco disso quando "morreu". Seu túmulo provou isso, aquela porcaria escrita "eterno filho, irmão e futuro herói". Parecia simplesmente hipócrita terem escrito isso em sua lápide depois de negarem aquilo para ele por tantos anos. Mas aparentemente quando você morria todos começavam a te apoiar e acreditar na sua capacidade.

Touya sabia que deveria ter voltado para casa. Não havia dúvida nenhuma quanto a isso, seu lugar era com sua família. Mesmo que esta aparentasse não gosta muito dele. É só que... ele não sabia se queria voltar. Se queria voltar a ouvir os gritos e aguentar os abusos de Endeavor, se queria ver seus irmãos tremendo e se escondendo de medo dele, se queria apenas ver Shouto de longe sendo arrastado para treinos pesados demais para uma criança tão pequena.

E esse sentimento piorou quando viu que sua morte foi um acontecimento completamente indiferente para seus irmãos e seus pais. Quer dizer, Enji não havia mudado absolutamente nada. Nadinha. Seu filho primogênito, o primeiro de todos, morreu e ainda sim ele continuava apenas abusando dos outros. Não fez diferença a sua morte, não significou nada. Isso mexeu com sua cabeça de uma forma que ele não sabia explicar. Parecia que as coisas simplesmente estavam muito erradas.

E sua mãe estava internada em um hospital psiquiátrico também, tinha isso. Touya não sabia se queria voltar para uma casa onde sua mãe não estaria esperando. Onde Rei não estaria o esperando porque seu marido abusou tanto dela que a enlouqueceu e a fez surtar e jogar água quente no seu filho caçula por quem ela tinha nítido favoritismo.

Touya não queria, mas ao mesmo tempo queria voltar para casa. Apenas não sabia o que fazer, e essa situação estava o enlouquecendo.

"Se continuar assim, logo farei companhia para minha mãe" ele pensou com uma risada amarga.

Estava apenas andando sem rumo, o capuz do moletom surrado cobrindo seus cabelos e seu rosto deformado. Não tinha exato controle de seus pés, sua cabeça estava muito longe de si para isso. Não foi até que seus olhos pararam em seu irmão do meio que ele congelou completamente.

Natsuo não estava olhando para ele, nem pareceu o notar. O que ele fazia era comprar flores em uma barraquinha perto de sua escola, com o corpo meio curvado e olheiras visíveis em seus olhos cinzentos tempestuosos. Parecia simplesmente tão cansado que Touya mal podia acreditar que ele só tinha doze anos, parecia ter todos os anos e experiências ruins nas costas. Touya se perguntou se parte disso era culpa sua.

Movido pela curiosidade e, um pouco, pela culpa, Touya decidiu ir ver o que seu irmão estava fazendo. Ele estava comprando flores, o mais velho se perguntou para quem. Será que ele estava gostando de alguma garota? Natsuo nunca foi o tipo que focava muito em relacionamentos. Mas, bem, ele tinha oito anos a última vez que realmente falou com ele. Haviam se passado quatro anos desde então.

Seguindo seu irmão pela cidade o mais discretamente que podia, Touya demorou um pouco para realmente perceber o que seu irmão estava indo fazer. Sentiu um aperto em seu peito, e ao mesmo tempo uma esperança doentia de que ele ainda sofresse com sua "morte". Touya sabia que era um doente, mas não se importava mais.

Entrando por cima do muro, observou seu irmão caminhar vagamente entre as várias lápides do lugar até parar em frente a sua, onde ele deixou as flores em um vaso. E simplesmente se sentou.

Touya franziu o cenho para aquilo, não podendo ver a expressão de seu irmão por ele estar de costas para si. Foi então que os ombros dele começaram a tremer consideravelmente, soluços um pouco engasgados saindo de sua garganta quando a dor pareceu rasgar mais forte em seu peito.

The LoneliestWhere stories live. Discover now