Há mais de cem anos, o mundo ainda era dividido em quatro grandes reinos — Inkiris, Desmond, Arivelo e Motdark — unidos apenas por tratados de casamento e alianças militares. Eram terras fortes, poderosas, guiadas por clãs que se viam como divinos.
Mas quando uma guerra fria se transformou em um conflito sangrento pela posse absoluta dos domínios, a união desmoronou. Por dez anos o mundo se afogou em sangue, traições e batalhas, até que finalmente não restou vencedor algum.
Os reinos se separaram e cada continente ficou sob o comando das antigas famílias que antes chamavam a si mesmas de reis, e agora eram apenas lordes.
No final da guerra, apenas uma autoridade suprema permaneceu: os Sarcetodes, detentores da mana antiga dos elementos. Foram eles que criaram um objeto divino, forjado com a mana original do mundo, e colocaram-no no topo de uma montanha de pura rocha e neve.
A profecia dizia: somente o verdadeiro rei, abençoado pelos deuses, seria capaz de retirar aquele artefato.
Assim decidiriam quem governaria o mundo novamente.
Mas cem anos se passaram sem que ninguém conseguisse sequer tocá-lo.
Enquanto isso, as quatro famílias continuaram governando seus continentes:
Valakis, de Inkiris, conhecidos como os Lobos — descendentes diretos dos transmorfos, capazes de se transformar em lobos e considerados os melhores guerreiros corpo a corpo entre todos.
Montdarst, de Motdark, uma família militar, orgulhosa e influente, cujo brasão do grifo não era apenas simbólico: antigas lendas diziam que eles criavam grifos e dragões em eras perdidas.
Sombor, de Arivelo, descendentes dos Ruptus, os primeiros feiticeiros, capazes de manipular mana e dominar os elementos naturais com maestria.
Crews, do quarto continente, conhecidos como os Imortais — uma família que vivia por séculos e era abençoada pela mana do próprio sol.
Quatro linhagens, quatro legados, quatro forças que jamais deixariam o mundo descansar.
Era nesse cenário que vivia Dante Montdarst, o segundo filho de Lorde Draken Montdarst.
Um garoto prestes a completar dezoito anos, criado entre espadas, expectativas e o peso de carregar o brasão do grifo.
Mas, antes de se tornar guerreiro, seu pai insistiu que ele servisse como escudeiro. Por isso Dante acompanhava seu tio, Guih, o Galante — um cavaleiro famoso não por suas vitórias, mas pela elegância ao montar seu cavalo e pela facilidade em conquistar moças em cada vila que visitava.
— Onde vamos, tio? — Dante perguntou enquanto cavalgavam.
— Vila de Sart, depois seguimos para Inkiris, ordens de seu pai.
— Por quê?
— Nada importante, garoto. Só siga em frente.
Guih sempre dizia para manter a postura impecável, mas nunca chamar atenção. O nome Montdarst era respeitado, mas também temido — e muitas vezes odiado.
Eles montavam dois cavalos robustos: Cristal, a égua branca do tio, e Raikar, o garanhão preto de Dante. Viajaram por horas sem descanso até chegarem à Vila de Sart, onde conseguiram abrigo por duas noites antes de seguirem viagem novamente.
No dia seguinte, depois de resolverem tudo com o comerciante apelidado de Senhor da Palha de Aço, voltaram à estrada rumo a Inkiris. A viagem parecia longa e silenciosa, até Guih quebrar o clima:
— Dante… já se apaixonou?
— Não, tio. Nunca tive esse prazer. Estive sempre ocupado com o senhor.
Guih riu. — Tolo demais, meu jovem.
— Tolo? — Dante rebateu. — O senhor fala tanto sobre amor e mulheres, mas nunca se casou. Só engravidou mulheres por onde passou e nunca amou ninguém de verdade. Então sim, amar é perda de tempo.
O sorriso de Guih desapareceu na hora.
— Doeu, hein garoto? Cuidado com o que diz. Eu já amei sim.
A voz dele mudou completamente.
— E também tenho um filho legítimo… de minha esposa. Ela morreu antes mesmo de você nascer.
Dante engoliu em seco.
— Eu sinto muito.
O resto do caminho foi silencioso e pesado.
Quando a tempestade finalmente começou a cair, eles encontraram abrigo sob uma grande rocha inclinada à beira da estrada. A chuva durou a noite inteira.
Guih adormeceu rápido, mas Dante não conseguiu.
Sentou-se com a espada ao lado, observando o céu escuro e ouvindo o som da água batendo na pedra.
Ele pensou em batalhas.
Poder.
Treino.
Glória.
E no orgulho que precisava conquistar do pai, já que sua irmã mais velha jamais herdaria o trono.
O amor não estava nos planos dele.
Mas o destino…
o destino estava prestes a cruzar seu caminho de uma forma que nenhum dos dois — nem Dante, nem Guih — poderia imaginar.
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Os filhos das Rupturas
FantasyO que antes era impossível passou a nunca mais ser. Dante tinha como missão tornar-se o maior dos Reis, mas mal sabia que uma presença atrapalharia todos os seus planos: Alysey Valaki, seu maior desafio.
