Infância de Merda

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O cheiro vinha antes da visão.

Cigarro velho, suor azedo, perfume barato e álcool derramado. Aquele mix já fazia parte da vida do Kenneth antes mesmo dele saber ler. O corredor era estreito, a luz piscava num amarelo cansado, e cada porta tinha uma história que ele nunca tinha sido convidado a entender, só a limpar.

Ele devia ter o quê? Oito, nove anos. Baixo, ossudo, com a vassoura num braço e o balde no outro. O chão grudava sob o tênis rasgado a cada passo.

Uma risada estourou em algum quarto, seguida de um gemido exagerado. No outro, um choro abafado que ele fingiu não ouvir. Ele passou direto, olhos no chão. Se começasse a olhar demais, começava a sentir demais. E sentir só atrapalhava.

Uma das portas se abriu de repente, batendo na parede com força. Um homem saiu tropeçando, calça meio aberta, camisa suada, rosto vermelho de cachaça. Ele xingava alguma coisa lá dentro, palavras emboladas, cuspindo no chão.

— Sua vadia de merda! — ele berrou, virando de volta pro quarto. — Eu pago, você obedece!

Kenneth congelou no corredor.

Lá dentro, a mãe dele respondeu com a voz já gasta:

— Para com isso, Ronny. Você já fez o que tinha que fazer. Agora vai embora.

Ele conhecia aquele tom. Não era coragem, era cansaço.

O cara voltou um passo, enfiando metade do corpo de novo no quarto, o braço levantando num impulso. Kenneth viu a cena como se o tempo demorasse um pouco mais pra andar:

O ombro do homem girando.
A mão fechando.
O estalo no ar antes do tapa.

A palma dele cruzou o rosto da mulher com força. A cabeça dela virou pro lado, o cabelo bagunçado caindo por cima do olho. Ela não gritou. Nem xingou. Só respirou fundo, como quem já tinha perdido a conta.

Foi aí que o corpo do moleque se mexeu sozinho.

A vassoura caiu pro lado com um estrondo seco. O balde virou, água suja se espalhando pelo chão. Kenneth avançou até o cara sem pensar, sem plano, sem medir nada.

— NÃO ENCOSTA NELA! — ele rosnou, com a voz fina de criança tentando soar grande.

O homem virou devagar, como se estivesse processando se aquilo era real mesmo. Ele encarou o menino magrelo, a camiseta larga demais, o olhar duro demais para aquela idade.

— Que porra é essa? — o cara riu, incrédulo. — O mascote do puteiro resolveu falar?

Kenneth sentiu o coração batendo rápido demais, quase na garganta, mas não recuou.

— Eu disse. Pra você. Não encostar. Nela.

O silêncio do corredor ficou pesado. A mãe dele, lá dentro, sussurrou:

— Ken... deixa isso quieto. Vai limpar o corredor, filho.

Ele ignorou. Deu um passo à frente. Estava perto o bastante pra sentir o bafo de álcool.

O homem o empurrou pelo peito.

Kenneth cambaleou, escorando o pé na poça de água suja no chão. Podia ter voltado, podia ter engolido o orgulho, podia ter fingido que não era com ele. Mas tinha alguma coisa queimando por dentro, um incômodo antigo que ele não tinha nome, só certeza:

Se ele não fizesse nada, ninguém ia fazer.

Ele fechou o punho pequeno e socou o cara no estômago.

Não doeu nele. Doeu na mão.

O golpe não tinha força pra derrubar um adulto, mas tinha o suficiente pra tirar a risada do rosto do homem. Ele olhou pra baixo, chocado, como se um cachorro tivesse acabado de morder o dono.

E aí o mundo resolveu cobrar.

O homem agarrou Kenneth pela gola da camiseta e o ergueu meio do chão, sem esforço.

— Tu enlouqueceu, moleque? — o hálito quente e fedido batendo na cara dele. — Vou te ensinar a lição que o viado do seu pai não te ensinou!

A primeira pancada veio rápida: um soco seco no estômago. O ar saiu todo pelos lábios num gemido rouco. A segunda veio na costela. A terceira ele já nem contou. Só tentou puxar o ar, mas parecia que o peito tinha virado uma pedra.

A mãe apareceu na porta, desesperada:

— PARA! RONNY, PARA COM ISSO! ELE É SÓ UMA CRIANÇA, CARALHO!

— Então aprende a segurar o filhote — o cara rosnou, largando o menino no chão só pra chutar.

O chute acertou o braço, depois a barriga, depois a perna. Cada impacto fazia o chão tremer na sensação do garoto. O azulejo gelado colado na bochecha, o gosto de sangue na boca, o olho ardendo de lágrimas que ele se recusava a deixar cair.

Ele não chorou.

Soltou um riso curto, quebrado, quase um soluço.

O homem recuou, cansado ou entediado, Kenneth não saberia dizer. Limpou o canto da boca, ajeitou a calça.

— Aprende, moleque — ele concluiu, cuspindo perto da cabeça dele. — Lugar de lixo é no chão.

Saiu pelo corredor mancando um pouco, esbarrando na parede, até sumir escada abaixo.

O silêncio voltou. Só o som distante de algum quarto, algum gemido, algum mundo paralelo em que ninguém ligava pro que acabou de acontecer ali.

A mãe se ajoelhou ao lado dele, tentando tocá-lo.

— Ken... filho... por que você fez isso?

Ele afastou a mão dela sem olhar, apoiando o cotovelo no chão pra se sentar. Tudo doía. Costela, braço, o orgulho nem se fala.

O sangue escorria do canto da boca, misturado com água suja e algum resto de produto de limpeza.

Ele respirou fundo, uma, duas vezes, até a dor estabilizar num nível suportável. Depois, passou o antebraço no rosto, limpando tudo de qualquer jeito, e pegou a vassoura caída.

— Porque ninguém mais faz — ele murmurou, quase sem voz.

Ela ia responder alguma coisa, mas ele já estava de pé. Pequeno, trêmulo, mas de pé.

Olhou pro corredor imundo, pras portas tortas, pro chão que ele ia ter que limpar de novo. O peito ardendo, o corpo inteiro reclamando, e uma ideia clara se plantando na cabeça dele, forte como uma tatuagem:

Se eu não proteger ninguém, outros também não vão.

Ele passou a vassoura pelo chão, arrastando com força a água suja e o sangue como se fosse tudo a mesma coisa.

Infância não era uma fase.
Era um luxo que ele nunca teve.

Ali, naquele corredor fedendo a tudo que o mundo tinha de pior, Kenneth Tyler Foster deu o primeiro passo pra deixar de ser criança e começar a virar o tipo de monstro que, um dia, ia impedir outros de passarem pela mesma coisa.

Nem que tivesse que apanhar até não levantar mais.

[BACKGROUND] Draken || O Dragão de ClevelandStories to obsess over. Discover now