FSH... FSH... FSH...
—Ei, Nara?
Naquele dia, a tarde estava desigual, mesquinha; muito, muito fria. O céfiro picava como agulhas em sua pele, e se ela olhasse para baixo, pensava que aqueles pequenos cortes em suas meias-calças pretas eram graças às minúsculas gotas de água cristalizada. Seus lábios estavam rachados, secos, o oposto dos da garota que caminhava ao seu lado, que eram vermelhos, com brilhos esbranquiçados graças à neve que o vento trazia consigo. Reconhecia a cor. Ela mesma havia comprado aquele brilho labial para ela de presente da última vez que dormiu na casa de sua mãe.
Ela sempre foi tão bonita.
—Diz, Sarah.
—Eu te amo.
Algo estalou sob seus pés, e quando ela olhou para a sola do sapato, uma concha azulada havia se partido em duas.
Nara escondeu sua tosse sob o cachecol.
—Ah —quando Sarah se virou, tinha um grande sorriso que deixava ver dentes como pequenas pérolas. Em suas palmas, havia uma pequena bolsa branca com um grande laço negro. —E feliz aniversário.
—Você sempre diz as coisas ao contrário.
Percebeu, com os olhos colados em suas mãos, como aqueles dedos, ainda sem luvas, afastaram aquelas mechas cor de mogno de suas pálpebras para enfiá-las atrás de uma orelha, cor-de-rosa por causa do frio.
—Que surpresa seria se eu desejasse feliz aniversário primeiro?
—Como eu te disse ontem, provavelmente não seria diferente. E eu estava certa —respondeu Nara, com humor, mas ainda séria, com o olhar fixo nos pequenos pedaços de areia bem no topo da cabeça de Sarah. —Mas alguém insiste um pouco em pensar que um único aniversário muda tudo em uma pessoa.
—Ei, você não é mais uma criança, mas ainda tem que respeitar os mais velhos! —replicou Sarah, gesticulando com o dedo.
—Você é só um dia mais velha.
—E uma hora! —Sarah sentiu a necessidade de acrescentar. —E quatro segundos —terminou, orgulhosa.
Nara assentiu, sábia.
—Sim. Minhas desculpas. Como eu poderia faltar com o respeito a alguém tão idoso?
Fazendo uma careta, Sarah esticou a mão para puxar uma mecha do cabelo de Nara; a franja. Enrolou-a em torno do dedo, puxando-a suavemente e maravilhando-se com sua maciez. Nara estremeceu. Ela sempre gostava quando Sarah brincava com seu cabelo assim. Adorava como as mãos de Sarah o manuseavam com tanta delicadeza, como suas unhas arranhavam seu couro cabeludo de um jeito que a fazia sentir como se pudesse dormir para sempre.
Não que ela admitiria isso em voz alta.
Sarah soltou seu cabelo, e uma parte de Nara gemeu por dentro com a perda do contato. Ela até havia começado a se inclinar para ela.
—Então —Sarah falou, depois de limpar a garganta. Ainda tinha aquela expressão no rosto, como se estivesse chateada. —Qual é a posição deste aniversário em comparação com os outros?
Ela perguntava isso todo ano. E todo ano Nara respondia a mesma coisa. Certamente, Sarah sabia.
Ela lembrou-se de seus aniversários anteriores enquanto passeavam pela praia. Como fingiram ser astronauta e alienígena no jardim de Sarah em seu décimo segundo aniversário, como jogaram juntas seu jogo de tabuleiro favorito quando ela fez treze anos (e se caSarahm: era uma longa história, mas foi para escapar de um Chiquinho gigante por motivos de enredo, e definitivamente não porque quiseram), e como no décimo quarto aniversário de Nara, Sarah e as outras garotas do clube das suicidas organizaram uma festa para as duas que durou o dia todo na escola.
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outono
Random"I'm pretty sure that I'll remember this day even ten years from now. But... I'm sure I'll start to forget, little by little. The name of the bus stop we got off at today. The color of the sweater I was wearing. The words that were popular between t...
