CAPÍTULO 1

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Eu não entendo.

Juro que tento, mas não entendo. As pessoas falam como se companheirismo fosse automático, como se amizade brotasse igual erva daninha. No meu mundo, nada cresce sem alguém tentar arrancar antes.

A academia estava abafada, cheia daquele cheiro forte de suor e spray barato pra limpar luva. Um lugar horrível pra qualquer um... menos pra mim. Era o único canto onde tudo fazia sentido. No ringue não existiam máscaras. No ringue, ninguém finge gostar de você. A pessoa que está na sua frente quer te acertar, e pronto. É quase libertador.

Hoje, porém, até isso estava esquisito.

A Letícia, que sempre dizia que era "como uma irmã", virou o rosto quando eu passei. O treinador cochichou algo com outro cara e os dois pararam de falar rápido demais. E aquele grupo que vivia me pedindo ajuda pra treinar fingiu que nem me viu.

Eu sei quando estou sendo empurrada pra fora. Já vivi isso a vida inteira.

No caminho pra casa, tentei não pensar demais nessas coisas. O problema é que minha cabeça nunca respeita meus pedidos.

Meu pai sempre dizia que o mundo era cruel, mas que comigo ele seria diferente. Que eu era "a única coisa boa que ele tinha". Uma piada de gosto duvidoso, considerando que ele nunca foi bom em nada que não fosse fugir dos próprios erros.

Eu só não imaginava que ele seria capaz de me entregar como se eu fosse um objeto de aposta.
E o pior... eu ainda nem sabia.

Tudo começou naquela noite. Eu caminhava sozinha pela rua, as mãos doloridas da última rodada de socos, o corpo latejando como sempre. Tava quase chegando em casa quando senti que algo estava errado. O tipo de errado que arrepia a nuca e acelera o coração sem pedir licença.

Passos. Um carro desacelerando. Um silêncio pesado demais.

Eu mal tive tempo de virar.

E foi aí que minha vida acabou de desmoronar.

Entre socos, e amor Histórias para pegar e não largar. Descubra agora