• • •
Rio, 2026 - O Reencontro
O calor úmido do Rio de Janeiro atingiu Mel assim que ela pisou fora do aeroporto. Era um calor diferente do da Europa, mais pesado, mais familiar. A mistura de cheiro de gasolina, sal do mar e asfalto quente era a essência da sua infância e adolescência. Ela respirou fundo, um sorriso irrequieto nos lábios. Estava em casa.
A surpresa estava armada. Sua mãe e seu irmão, João Miguel, a esperavam, mas fora isso, ninguém mais sabia. Nem Lorenna, sua melhor amiga desde os dez anos, e muito menos ele.
A primeira noite foi um turbilhão de abraços, choros e risadas na casa da avó, em Marechal Hermes. João Miguel não parava de apertar sua irmã, orgulhoso de ter guardado o segredo.
— E a Lorenna? — Mel perguntou, ansiosa. — Ela vai vir?
— Tá vindo, sim. Disse que mataria alguém se não a avisassem da sua chegada. Ela deve estar chegando agora — disse João Miguel, olhando para o portão.
Mas não foi Lorenna quem apareceu primeiro. Um carro familiar parou na rua e a porta do passageiro se abriu. Mel congelou.
Vitor.
Seus 18 anos o haviam transformado. O garoto magrelo e desengonçado que ela lembrava agora era um homem. Seus ombros eram mais largos, sua postura mais confiante, mas seus olhos... ainda eram os mesmos olhos castanhos que a fitavam com uma intensidade que fazia seu estômago embrulhar.
Ele parecia igualmente chocado. Parado ao lado do carro, ele a encarou como se visse um fantasma. Um fantasma que ele tanto desejou.
— Mel? — a voz dele estava mais grave, mas o jeito de dizer seu nome era o mesmo.
Antes que ela pudesse responder, a porta do motorista se abriu e uma garota de pele morena, com os cabelos longos lisos, e sorridente saiu. Era bonita, foi direto para o lado de Vitor, entrelaçando os dedos com os dele.
— Amor, quem é? — a garota perguntou, docemente.
O feitiço se quebrou. Vitor piscou, parecendo se recompor.
— Raylane, essa é a minha prima, Mel. Mel, essa é a Ray, minha... namorada.
A palavra "namorada" caiu como uma pedra no peito de Mel. Ela sabia. Claro que sabia. Pelas mensagens, pelas indiretas, pelos posts que ela via e depois fingia não ter visto. Mas ver aquilo ao vivo, a mão dela na dele, foi diferente. Foi real.
— Prazer, Raylane — Mel disse, forçando o sorriso mais profissional que conseguiu.
— Nossa, finalmente te conheço! Vitinho vive falando de você! — Raylane disse, genuinamente simpática.
Mel quase engasgou. Ela sempre o chamara de Vitinho.
Nesse momento, Lorenna chegou como um furacão, gritando seu nome e pulando em seus braços, quebrando a tensão momentaneamente. O abraço da melhor amiga era o porto seguro que ela precisava.
A noite seguiu com um churrasco. Mel se sentou entre Lorenna e João Miguel, tentando não olhar para o canto onde Vitor estava, com Raylane colada em seu lado, alimentando-o com espetinhos. Era nauseante.
Em um momento, ela se levantou para pegar uma bebida na geladeira interna. Quando se virou, Vitor estava lá, na porta da cozinha, bloqueando a saída.
— Você não avisou que vinha — ele disse, sua voz um sussurro áspero.
— A ideia era essa. Surpreender — ela respondeu, cruzando os braços.
— Funcionou.
Eles se encararam em silêncio. O ar entre eles parecia vibrar. Ela conseguia sentir o calor do corpo dele dali. Todas as mensagens que ele havia enviado, todas as confissões noturnas de saudade e desejo, vieram à tona naquele olhar.
— E a Raylane? — Mel cutucou, incapaz de se conter. — Parece... Legal.
Vitor desviou o olhar, incomodado.
— Ela é. Mas você sabe que não é... você sabe que não é isso que importa.
— Importa sim, Vitor. Você não está mais solteiro, mandando mensagem de madrugada para uma prima distante na Europa.
— E cuja culpa é isso? Quem sumiu por dois anos? — ele retrucou, um fogo acendendo em seus olhos.
— Eu não sumi! Nós nos falamos! Você é que parou de repente! — sussurrou ela, furiosa.
— Porque era insuportável! Ouvir sua voz e saber que você estava do outro lado do mundo! Saber que eu tinha perdido minha chance com a única garota que eu sempre quis! — a voz dele falhou, e ele deu um passo à frente.
Mel sentiu as pernas tremendo. A tensão sexual era tão palpável que ela achou que poderia tocá-la. Ele estava tão perto. Ela só precisava estender a mão...
— Amor? Tudo bem? — a voz cantada de Raylane ecoou da sala.
Vitor fechou os olhos, como se fosse atingido. Ele recuou dois passos, criando uma distância física dolorosa.
— Está tudo bem, amor! — ele gritou de volta, mas seus olhos nunca deixaram os de Mel. Eles diziam tudo que sua boca não podia: Ainda sinto tudo por você. Isso não acabou.
Ele se virou e saiu, deixando Mel sozinha na cozinha, com o coração batendo tão forte que ela temeu que todos ouvissem.
Mais tarde, no terraço, olhando as luzes do Leblon, Lorenna se aproximou.
— E aí, memel? Tá surtando? — perguntou, passando o braço around Mel.
— Algo assim — Mel admitiu, encostando a cabeça no ombro da amiga.
— Eu vi a cena na cozinha. A tensão entre vocês dois dava para cortar com uma faca de churrasco. E a pobrezinha da Raylane nem desconfia.
— Ele namora com ela, Lo. É errado.
— Errado é o que vocês dois fizeram, de se afastarem naquela época. A família toda sabia que vocês acabariam juntos algum dia. Até o João Miguel apostou.
Mel riu, sem humor.
— Pois é. E agora?
— Agora — Lorenna disse, virando-se para encarar a amiga —, você aproveita suas férias. O Rio é grande, mas não é tão grande assim. As coisas têm um jeito de acontecer aqui. Especialmente entre vocês dois.
Lorenna deu um piscadinha e entrou, deixando Mel sozinha com seus pensamentos.
Mel olhou para o mar escuro lá embaixo, ouvindo os risos do grupo dentro de casa. Ela conseguia distinguir o riso dele. Sempre conseguira.
Ela sabia que Lorenna estava certa. A história deles não tinha terminado em 2020. Ela tinha apenas pressionado "pausa". E agora, sob o céu carioca, quente e cheio de estrelas, parecia que alguém estava prestes a apertar "play".
Fim do Capítulo 1.
A HISTÓRIA SE PASSA NO RIO DE JANEIRO - BRASIL.
Personagens principais(mais falados):
Mel 21 anos
Vitor 19 anos
Lorenna 20 anos
João Miguel 22 anos
Raylane 19 anos
obs: nomes fictícios.
Lorenna já está noiva de outra pessoa, mas a amizade entre ela e João Miguel é normal e os dois se respeitam. Mel não ficou fora por 6 anos, foi apenas 2 anos, 2025 e metade de 2026. Em 2025 Vitor iniciou a carreira como militar na FAB. Lorenna tinha uma doceria virtual que fazia muito sucesso, Mel estava na frança morando com sua mãe e seu padrasto, e estudou e trabalhou durante esse tempo. João Miguel estava trabalhando em um escritório na ASIA durante esse tempo também. Mas todos estavam de férias.
YOU ARE READING
O Reencontro
RomanceMel e Vitor namoraram a cinco anos atrás em 2020, um relacionamento que durou apenas três meses. Os dois se gostavam desde quando eram crianças, e a família, sempre apoiaram os dois, apesar de serem primos de segundo grau. Depois de dois anos, Mel...
