Estranheza diária

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POV Jennie

Passei a noite toda olhando pro teto mofado do meu quarto, pensando na desgraça que é a minha vida atual. Mesmo com esses pensamentos, o teto inanimado parece estar me julgando e rindo de mim, talvez seja porque olhei por tanto tempo que rostos distorcidos começaram a se formar nele. Mas antes que eu tivesse tempo de questionar minha sanidade...
-JENNIE!!!! DESÇA JÁ AQUI SUA INÚTIL!!!!
Oh... Mamãe já está acordada. Pensei que iria dormir até o final do dia, igual o que ela fez todo o verão... Mas se eu não descer... Tenho medo do que ela fará à mim.
Respirei fundo e desci as escadas, até ver o rosto envelhecido pelo cigarro e o álcool. Nem parece que a mulher jogada no sofá fumando tem 32 anos.
-Até que enfim você chegou filhinha! Fiz café da manhã pra você! Já que hoje é o primeiro dia de aula :).
Ela estava estranhamente... amorosa? Parecia uma isca pra algo pior, tipo o café da manhã incrivelmente bonito na mesa. Panquecas, ovos mexidos e suco de laranja... Meus favoritos de quando o papai fazia pra mim... Agora parece algo com sentimento ruins misturado na massa.
-Vamos Jennie. Sente-se.
Ela falava isso com um sorriso estranho enquanto puxava uma cadeira pra mim, sinalizando de forma meio agressiva para eu me sentar.
-Obrigada mãe.
Eu estava com medo. Algo parece errado. As panquecas estavam com um cheio estranhamente forte de canela, o suco estava mais escuro que o normal e os ovos mexidos estavam com pontinhos cinzas por toda parte. Apesar da fome, aquilo não parecia nem um pouco confiável, e eu olhava ao redor procurando algum sinal de algo errado, até que vi um saco de lixo meio rasgado, cheio de latas de veneno pra rato.
-Wow. Esse café da manhã parece estar delicioso, mas eu já tô atrasada pra escola. Então vou ter que ir agora.
Nesse momento, ela foi até a cozinha enquanto eu pegava minha mochila e, sem aviso, vi uma panela com água fervente em suas mãos, pronta pra ser jogada em mim. Me apressei e escancarei a porta e a bati atrás de mim. Só pude ouvir um baque metálico contra a porta e os gritos histéricos dela enquanto corria pra escola.
A caminhada (ou corrida nesse caso) até a escola foi normal. Protestos sobre questões que adultos idiotas não entendem, motoristas bêbados quase me atropelando e uma pessoa com cabeça de tv... Pera aí... CABEÇA DE TV!?
No meio do protesto sobre os weirdlians (uma espécie de outra dimensão) tinha uma pessoa com uma tv na cabeça, segurando uma placa escrito "Não somos pragas à serem exterminadas!". Ninguém mais parecia surpreso com aquilo. Talvez fosse uma fantasia? Não sei, mas a pessoa se virou pra mim e sorriu, falando alguma coisa que parecia ser um convite a se juntar ao protesto. Só dispensei fazendo um sinal de negativo com a cabeça e voltei a correr até a escola.
Quando cheguei, o prédio estava fechado e com um grande aviso pendurado na porta. Aparentemente, a escola foi atacada por alguns ativistas, num ataque pessoal contra o diretor.
"Que legal... Vou ter que voltar pra casa que acabei de escapar".
Me virei pra ir gastar o resto do dia em algum outro lugar, mas meu caminho foi interrompido por um carro chique que ofuscou um pouco minha visão. De dentro dele, saiu uma garota com roupas de marca fofas, com cabelos loiros escuros e olhos verdes que quase imediatamente se fixaram em mim.
-JENNIEEEEEEEEEEEE!!!!
Ela saiu correndo na minha direção, com braços abertos prontos pra me abraçar. Além da mini corrida, ela pulou em cima de mim e ambas caímos no chão.
-Também senti saudade de você Nicolly. Mas poderíamos nos abraçar em pé? Você tá sentada em cima das minhas pernas e elas tão ficando dormentes.
-AI MEU DEUS! Desculpa! Deixa eu te ajudar a levantar.
Depois de ambas estarmos fora do chão, continuamos abraçadas por uns 5 minutos, até que decidimos matar o resto do dia andando pelas redondezas da escola, num passeio muito bom e revigorante. É tão bom poder ver a luz do sol após passar as férias de verão presa dentro casa. Mas, principalmente, era bom ver a Nicolly de novo.
Depois de passar horas andando, nossas pernas começaram a querer falhar e o passeio debaixo do sol quente nos deixou cansadas demais para continuar. Por sorte, havia um McDonald's perto da onde estávamos, e como estava no hora do almoço, pareceu uma boa ideia almoçar por ali.
Assim que entramos, sentimos uma onda de nostalgia (e o ar gelado do ar-condicionado) nos atingir e relaxar nossos nervos, mas principalmente os meus, já que ainda estava um pouco em choque que a própria mulher que me deu a luz ter tentado me matar naquela manhã.
-Faz tanto tempo que não venho num desses. A última vez que vim foi com... o meu pai.
-Já que faz taaaaanto tempo que você veio aqui... Vamos fazer dessa vez especial! Vamos relembrar os velhos tempos.
Lly tomou a minha mão, falando memórias de infância que foram a longo tempo esquecidas.
-Que tal o Mc lanche Feliz? Faz anos que não como uma dessas coisas. Ah! Tá tendo um brinde da Sanrio junto! Quem sabe nós conseguimos algo legal!
-Ah... Parece legal. Vamos ver quais ainda estão em estoque... Se é que tem algum em estoque...
Fizemos o pedido e fomos nos sentar, mas é claro que adolescentes da nossa idade estariam nos olhando esquisito. Mas eu estava com Lly, nada do que eles poderiam falar me afetaria.
-Hey! Eu consegui a My Melody! O que você conseguiu Jen?
-Oh! Eu peguei a...Kuromi? E esse o nome dela? Meu deus! Faz tanto tempo que vi algo da Hello Kitty.
-Apesar de fazer tanto tempo, você ainda conseguiu acertar o nome dela.
-Eu acabei lembrando de você me mostrando esses bonequinhos quando éramos crianças...
-Hehe~ Você ainda lembra!
-Acho que sim...
Continuamos comendo e aproveitando o momento, já que seriam poucas as vezes que poderíamos fazer isso sem a minha... "mãe" incomodar.
Depois de comermos e sairmos de lá, já por volta das 14:00hrs, resolvemos matar as próximas horas brincando num velho parquinho abandonado no caminho pra casa da Lly. Apesar dele estar acabado e abandonado a anos, foi legal relembrar as tardes que passamos juntas aqui quando éramos crianças. E se não quiséssemos mais brincar, sabíamos que tinha um banquinho do lado para podermos descansar.
O primeiro brinquedo que fomos foi o balanço.
-A gente falou falou falou, mas não falou das nossas férias! Me conta TU-DO!
-Ah! Minhas férias? Bem, passei os dias presa dentro de casa sobrevivendo de miojo e água, minha energia quase foi cortada, minha mãe tentou me matar hoje de manhã e eu ainda tô meio assustada...
Olhei pra Nicolly e sua expressão era de espanto mas rapidamente mudou para raiva, se intensificando ao olhar para mim.
-Aquela mulher... Jen, eu quero que saiba que se aquela vagabunda tentar avançar pra cima de você tentando te matar e ➕eu estiver perto... Quero que se lembre que sei como atirar e que meu pai tem uma arma em casa.
-Mas e se você não estiver perto?
-EU vou te ensinar a atirar, a empunhar uma faca e até te ajudar com seus reflexos, mas quero que saiba que pode contar comigo pra tudo!
-Eu-Eu tô sem palavras... Não sei se posso te pagar por isso...
-Não precisa okay? Só se preocupa consigo mesma agora. Pra afastar esses pensamentos... VAMOS NO GIRA-GIRA!
Ela, a pessoa que sempre admirei, tomou minha mão mais uma vez e me levou animadamente até o gira-gira... Queria que esse dia nunca acabasse.

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⏰ Last updated: Feb 07 ⏰

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