São Paulo.
Estiquei mais uma vez o lençol e ajeitei os travesseiros. Faltava pouco para eu sair para o trabalho, mas odiava deixar a cama desarrumada. De fato, parecia que o meu dia não rendia quando eu saía e ela ficava assim.
Virei-me até a sapateira e peguei meu segundo scarpin favorito, preto e altíssimo. O primeiro eu precisei jogar fora na noite passada, quando cheguei do trabalho e vi a sola se desmanchar por completo. Querendo ou não, podendo ou não, eu teria que comprar outro.
Prometi a mim mesma que faria isso antes de voltar para casa naquela noite. Olhei-me no espelho e conferi: camisa de cetim branca, colar dourado delicado, calça social preta e meu segundo scarpin. Meus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo altíssimo; eram grossos, extremamente lisos. E pretos, muito pretos. Minha pele clara contrastava demais com eles, assim como meus olhos castanhos. A maquiagem estava simples, mas bem-feita.
Olhei o relógio no pulso e percebi que, se não saísse naquele momento, me atrasaria. Como não tinha dinheiro para pegar um Uber, afinal, era fim de mês e o pagamento só sairia na semana seguinte, não podia me dar ao luxo de perder o ônibus que passava literalmente na frente do prédio.
Corri pela cozinha, peguei minha bolsa e a bolsinha térmica com o almoço. Meu vale-alimentação até me permitiria almoçar no shopping ao lado da empresa, mas eu gastava muito menos comprando os ingredientes e cozinhando. Além do mais, tinha certeza de que minha comida não me faria mal.
Como sempre, a recepção da empresa estava uma loucura. Cumprimentei os seguranças, passei o crachá na catraca de acesso e vi o nome surgir na tela: Alana Alves – Estagiária Administrativo | Acesso liberado.
Subi até o último andar no enorme e elegante elevador, guardei rapidamente minha comida e segui até a pequena mesa próxima à parede de vidro. Dali, eu tinha o privilégio de contemplar a cidade imensa aos meus pés, isso, quando sobrava tempo para observar.
Em passos largos e com o som dos saltos ecoando pelo andar, Mariane Brito veio em minha direção. Éramos amigas, e ambas estagiávamos na maior empresa de investimentos do país, a terceira maior do mundo.
The Lacerda Company.
A família Lacerda era uma das mais poderosas e bilionárias do país. O faturamento anual deles era estrondoso, e aquilo me enchia de esperança, porque meu maior sonho era crescer ali.
— É hoje! — Mariane sorriu, sentando-se sobre a minha mesa.
Lancei-lhe um olhar por baixo das sobrancelhas. Do que essa doida estava falando agora?
— É hoje? — perguntei.
— Me frustra o quanto você não se importa com os meus sentimentos! Eu te disse um milhão de vezes que o filho do nosso presidente aprontou de novo. E, como punição, ele e os amigos vão ter que vir trabalhar aqui...
Uau.
— Nossa, que duro, né? — ironizei. — Faz merda e o castigo é trabalhar na empresa do papai. Um verdadeiro pesadelo.
Mariane soltou os cabelos cacheados e volumosos e refez o coque. A pele marrom-escura brilhava com o iluminador dourado. Ela daria uma ótima modelo, mas também era uma excelente estagiária.
— Pode debochar o quanto quiser — disse ela. — O herdeiro gostosão vai começar a trabalhar aqui e, se tudo correr bem, vai se apaixonar por mim como nos filmes. Eu vou ser a futura CEO!
Segurei o riso e balancei a cabeça.
— Se quiser, quando ele sair do elevador, posso te ajudar a cair de joelhos aos pés dele.
Ela fez uma careta e me deu um tapinha no ombro.
— Não, obrigada. Vou conquistá-lo com minha beleza e bom humor.
— Beleza, com certeza. Bom humor... aí já podemos discordar.
— Já te disse que você é insuportável?
— Já — respondi, piscando de modo inocente. — Mas você me adora.
Ela torceu a boca e cruzou os braços.
— Talvez... um pouco.
O dia passou normalmente, e ninguém diferente apareceu. Mariane tentou disfarçar a frustração, mas eu nem tive tempo de provocá-la. O trabalho estava tão intenso que até ela, coitada, mal conseguia reclamar mais do que duas palavras.
Já passava das dezesseis e vinte quando terminei de preparar os últimos materiais para a reunião importante que minha encarregada teria no dia seguinte. Todos já tinham ido embora; só restara eu. Antes de sair, resolvi comer um pedaço do sanduíche que havia deixado na geladeira.
Como batemos a meta da semana, ganhamos alguns petiscos e bebidas para comemorar durante o dia, mas, com a correria, mal tive tempo de provar. Coloquei um pedaço de torta no micro-ondas enquanto passava maionese no sanduíche. Eu estava animada: o dia tinha sido produtivo, eu estava alimentada, e isso significava que não precisaria chegar em casa e cozinhar cansada. Além do mais, eu merecia todos aqueles carboidratos.
Coloquei uma música no celular e o deixei ao lado da minha agenda e da caneta, enquanto servia um pouco de refrigerante zero. Senti o vibrar do aparelho e, quando estendi a mão para pegá-lo, acabei derrubando a caneta.
— Eita... — resmunguei, abaixando-me para pegá-la.
Mas alguém já o fazia por mim.
Azuis.
Definitivamente, eram os olhos azuis mais lindos que eu já tinha visto em toda a minha vida. Acho que fiquei boquiaberta, porque o sorriso mais lindo — e mais sarcástico — que já presenciei surgiu ali, bem diante de mim.
E então, a voz:
— Eu sei, respirar fica difícil, né? Mas acho que é importante tentar.
Pisquéi algumas vezes antes de balbuciar:
— O-o quê?
Ele se aproximou e me entregou a caneta.
Mas aquele pequeno gesto pareceu se transformar em um duelo intenso.
Olhos azuis x olhos castanhos.
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Do outro lado do tempo
RomanceAlana sempre acreditou que controle era a chave para sobreviver: controle emocional, profissional e pessoal. Estagiária em uma grande empresa, ela construiu sua rotina com regras claras, até cruzar o caminho de Erick, o herdeiro da companhia, um hom...
