Isabella Moreau
Quando eu era nova, via casais de 10, 20 anos se separarem em uma terça-feira qualquer e achava aquilo um absurdo. Pensava: "Como alguém desiste de uma história tão longa?". Eu jurava que comigo seria diferente. Que o meu amor seria à prova de tudo. Até o dia em que a vida me provou o contrário.
A gente vê casal famoso se separando e pensa: "Mas eles eram tão apaixonados!". Bom, eu aprendi, na pele, que por trás das câmeras, o amor é um grande espetáculo de marketing. E digo isso porque fui atriz principal desse filme.
Fui casada por quatro anos com Elyan Carter. Ele, o astro do hockey; eu, a doutora que vivia correndo entre plantões. A gente se esbarrou por acaso no último ano da faculdade. Eu estava um caco: plantão de 24h, ônibus atrasado, olheiras fundas. Ele vinha com o time e eu, distraída, bati de frente com ele. Dois dias depois, ele apareceu no meu intervalo e pediu meu número. Recusei. Porque, apesar de achar ele lindo, eu tinha medo do que um jogador daquele porte poderia querer com uma estudante cansada. Mas ele insistiu. Por uma semana, ele sentou em todas as minhas aulas, me olhou com aqueles olhos azuis e implorou por uma chance. E eu, boba, achei que aquele amor de cinema duraria para sempre.
Diante das câmeras, a gente era o conto de fadas. Os sorrisos nos eventos, os beijos roubados nas arquibancadas, as entrevistas onde ele dizia que eu era o "pilar" dele. E, por um tempo, aquilo foi real. Mas o real tem um prazo de validade.
Quando Elyan virou capitão, o mundo dele virou o gelo. E eu? Eu virei um móvel na casa que a gente dividia. Meus dias no hospital eram exaustivos, os dele no rinque eram gloriosos. Mas quando a noite chegava e a gente finalmente se encontrava, não sobrava mais nada. Não sobrava conversa, não sobrava toque. O silêncio entre a gente era tão pesado que chegava a doer fisicamente. E quando eu tentava romper aquele silêncio, virava briga. Palavras afiadas como patins no gelo, cortando o pouco que ainda restava de nós.
Eu jurei que nunca deixaria meu casamento acabar. Porque eu vi o meu pai definhar quando minha mãe fugiu com um homem mais novo, rico, que a tirou de casa como quem leva um troféu. Eu vi meu pai, policial, se virar para sustentar eu e meu irmão Ian, com um salário que mal dava para o feijão. Vi Ian, com dezesseis anos, pegar no pesado para ajudar em casa. Eu vi a tia Camila, irmã da minha mãe, chegar com o coração aberto e colocar a gente na terapia. Eu vi a dor nos olhos do meu pai. E eu jurei, com todas as minhas forças, que eu nunca, jamais, faria ninguém passar por aquilo. Que eu lutaria até o fim.
Mas o amor não morre em um grande estrondo. Ele apodrece em silêncio, num gotejamento constante. E o meu estava se desfazendo gota por gota em cada noite em que eu chorava sozinha no travesseiro, enquanto ele dormia ao lado, indiferente. Em cada jantar que esfriava na mesa, com dois pratos postos e apenas uma cadeira ocupada. Em cada vez que eu estendia a mão para tocar ele e sentia que estava tocando um estranho.
O golpe final não veio com uma traição. Veio com a ausência. Veio numa semana terrível onde vários pacientes meus morreram. Eu carreguei o peso de cada morte nos ombros, o cheiro de antisséptico e o gosto amargo do fracasso na boca. Cheguei em casa destruída, com a alma em frangalhos, e só queria desabar no colo dele. Queria que ele me segurasse e dissesse que ia ficar tudo bem. Quando abri a boca para falar, ele me cortou com um "Estou ocupado, depois a gente conversa", enquanto mexia no celular. E o "depois" nunca veio. Ele simplesmente virou as costas e foi dormir, como se eu fosse invisível.
Naquele instante, o chão sumiu sob meus pés. Eu olhei para mim mesma e vi o fantasma da minha mãe. Vi o ciclo se repetindo. Vi o amor apodrecendo exatamente da mesma forma. E eu percebi que não adiantava mais lutar sozinha. O amor é uma via de mão dupla, e a pista dele estava deserta.
Em uma terça-feira, ironicamente igual a tantas outras, eu esperei ele chegar do trabalho. Não com um jantar pronto, mas com uma pasta cheia de papéis. Minhas malas estavam fechadas no quarto. Quando ele abriu a porta e me viu sentada na sala, com os olhos inchados de tanto chorar em silêncio, algo na face dele mudou. Ele sentiu. Eu olhei fundo nos olhos azuis que um dia foram o meu porto seguro, e vi o desespero tomar conta deles. Ele implorou. Ele se ajoelhou. Ele disse que me amava, que ia mudar, que era só uma fase. Mas a verdade é que eu já tinha mudado. Eu já tinha virado uma mulher que não se reconhecia mais. E doer naquele nível... não tem volta.
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Placar do Coração
RomanceQuando a renomada médica Isabella Moreau aceita o cargo de médica esportiva de um time de hockey, ela esperava desafios na área da saúde, não um reencontro com o passado. O time, no entanto, é o mesmo em que seu ex-marido, Elyan, brilha como capitão...
