Kyra ornstein caminhava pelo vasto cinzal, um lugar onde não havia vento para soprar, sol para esquentar ou vida para alegrar. Almas vazias faziam caminhadas enormes em busca do expurgo final onde deixariam de existir pela eternidade. Seus corpos eram feitos de pele azul e ossos expostos, olhos negros, totalmente negros. Assim como os outros, Kyra era um desses condenados, sem passado, era só mais um naquele vasto cinzal.
Certa vez, enquanto fazia sua caminhada como sempre, alguém bruscamente esbarrou em seu corpo frágil, fazendo-o cair na areia de cinzas, pela primeira vez criando o sopro, olhando para aquela estranha poeira pairar pelos céus, recobrou sua consciência e viu, correndo entre as almas vazias, um homem completamente desesperado. Desferindo socos e chutes no máximo de gente possível.
Kyra se levantou, olhando para seus irmãos vazios, vendo que além daquele ser, o estranho sopro é ofuscado por um vulto negro passando por eles. Voando como uma coruja, no completo silencio, uma enorme mão surge. Com um olho na palma, encarava aquela alma estranha que corria mais rápido ao vê-la. Veias saiam de seu punho, com pequenas garras e dentes, prontas para pega-lo.
Kyra pensou '' onde estou? Quem sou eu? Quem era ele? '' tantas perguntas compartilhadas de seus irmãos opacos. Antes de darem um passo sequer, ouviram pela primeira vez, um grito de dor. aquela alma foi segurada e levada ao céu cinza berrando como um anjo em queda ''o sentido da vida, eu o desejo e aos meus irmãos o plano superior! ''. A mão abriu, e de seu dedão, uma boca surgiu, abocanhando o homem e arremessando a alma para que ela nunca mais atrapalhasse a caminhada sagrada.
Horrorizado, Kyra voltou ao seu posto, fingindo caminhar como antes, viu que sombras titânicas passavam por ele, os ''observadores''. As mãos estavam à procura de almas que fugiram do sistema, expurgar almas horríveis era o dever deles, e, assim fizeram desde que as estrelas nasceram.
Caminhando por muito tempo, percebeu que em sua mão havia um capacete, com espinhos longos e algo escrito dentro dele, aproximando de seu rosto um pouco, sem se mexer muito leu '' Kyra ornstein, punk''. E, com clareza pensou ''meu nome é esse? O que é punk?''
E um dos observadores passou, com seu olho extremamente sensível, viu que Kyra estava se mexendo fora das normas e logo desceu para confirmar. Por cima da caveira, seu olho negro pulsava de tanto tempo que estava aberto. Por algum motivo, ao se recordar daquela alma que esbarrou em seu corpo, uma chama, um sol nasceu em seu interior e num movimento brusco, pegou um pedaço de rocha do cinzal, apontou na mão e com um disparo conseguiu explodir um dos olhos que berra um estridente.
Perdendo a noção de direção, mão observadora balançou de um lado para o outro, tentando podar Kyra que, consegue subir num dos dedos usando seu capacete de espinhos, fincando em sua pele. ''oh céus, como eu controlo essa coisa?'' pensou em desespero, puxando bem forte o dedo indicador, ascendeu ao céu.
Pela primeira vez, Kyra ornstein estava fazendo algo que não seja vagar sem sentido, estava de fato fazendo algo que fizesse sentido. Escapar. Mas de que exatamente, uma questão que tomou conta de seu interior.
— Ei observador, me conte tudo sobre esse lugar e o sentido da vida!
Enquanto vagavam pelos céus, o ser estranho o responde, com gaguejar:
— como uma casca vazia, sem coração e sem alma pode exigir algo? Não possuo medo de seu atrevimento, mas do que pode acontecer comigo!
Confuso, a caveira retruca:
— Posso ser essa tal casca vazia, mas sinto que no fundo de meu coração existe algo, um fogo que pode renascer a qualquer momento, basta ser no tempo certo!
Rindo, o dedo mindinho se contorceu e desferiu um golpe nas pernas do esqueleto punk, se ajoelhando.
— Olhe ao seu redor seu boçal, você nasceu num mundo onde não existe sentido algum, seu sofrimento começou a partir de agora quando sua consciência despertou. Nem música nem palavras bonitas vão impedir de que sua dor surja e sugue sua energia vital. Terá momentos em que estará prestes a perder tudo, questionando-se '' vale a pena tudo isso?''.
YOU ARE READING
O Cinzal
FantasyEm um vasto cinzal, com um vazio imensurável e almas perambulantes, alguém toca no corpo de kyra ornstein que desperta de seu ciclo vicioso. cobiçado pela ideia do plano superior, decide fugir desse lugar e encontrar seu verdadeiro lar.
