O som distante dos relógios ecoava pelos corredores da TVA. Tudo ali parecia eternamente igual — as mesmas paredes amareladas, o mesmo brilho artificial e o mesmo ar de rotina que Mobius dizia gostar. Mas, para Loki, a monotonia era quase um castigo.
Mesmo assim, havia algo — ou melhor, alguém — que tornava aquele lugar suportável.
Mobius.
O analista que insistia em acreditar que Loki podia ser mais do que o "Deus da Trapaça". O homem que o fazia rir sem perceber. O único que enxergava o caos de Loki e ainda assim via... algo bom.
Naquela manhã, Loki estava sentado em uma das mesas da sala de relatórios, brincando com uma caneta roubada. Mobius apareceu carregando duas xícaras fumegantes.
— Achei que o “Deus das Travessuras” também precisava de café, — disse Mobius, sorrindo de leve.
— Eu não pedi, — respondeu Loki, mas o sorriso denunciava que ele tinha gostado.
Mobius se sentou ao lado dele, olhando os papéis espalhados. — Você anda mais calado ultimamente. Tá tudo bem?
Loki desviou o olhar, tentando disfarçar. — Só estou cansado de tentar ser o que esperam de mim.
Mobius ficou em silêncio por um instante. Depois, encostou o cotovelo na mesa e disse com aquela calma que sempre desarmava Loki:
— Eu não espero que você seja nada além de você mesmo.
A frase ficou no ar.
Por um momento, o tempo pareceu desacelerar — e não era mágica. Era o jeito como Mobius o olhava. Com confiança. Com... ternura.
Loki tentou disfarçar o calor que subia pelo rosto. — Você fala demais.
Mobius riu. — E você se importa demais.
O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Era cheio de significado. Loki observou Mobius beber o café e notou algo nos gestos simples — o cuidado, a paciência, o carinho disfarçado nas pequenas ações.
E, talvez pela primeira vez, Loki não quis fugir.
— Mobius... — começou, hesitante.
— Hm?
— Se tudo isso acabasse amanhã... você sentiria falta de mim?
Mobius pousou a xícara devagar, pensativo. — Eu já sentiria falta agora, se você fosse embora.
O coração de Loki bateu mais forte. Nenhuma magia, nenhuma glória, nenhum trono jamais havia feito ele se sentir assim.
Ele se levantou, deu um passo em direção a Mobius e, num gesto raro de sinceridade, pousou a mão sobre o ombro dele.
— Então... ainda bem que eu estou aqui.
Mobius sorriu, um sorriso verdadeiro, e respondeu baixo:
— Ainda bem mesmo.
O tempo continuou correndo — talvez até a Senhora do Tempo tivesse parado pra assistir.
E, naquele instante, no meio da TVA, entre café, papéis e olhares, Loki finalmente entendeu:
Alguns laços não precisam de magia pra serem eternos.
