Antes do tempo e do espaço, antes da primeira estrela respirasse luz, havia apenas o Nada. Um vazio tão profundo que devorava a ideia de som, um abismo onde a escuridão era mais espessa que tinta.
E então, como um raio cortando a noite eterna, Elyndria surgiu. Não era carne, nem sombra - era a pura energia da criação, a centelha que rompeu o silêncio do cosmos. No entanto, para existir no vazio, ela assumiu forma. Alta, etérea, os contornos de seu corpo eram feitos de luz, aparentando inconfundivelmente uma figura feminina. Sua ''pele'', se assim pode-se nomear a superfície translúcida de seu ser, irradiava um calor suave como o primeiro alvorecer e seus cabelos flutuavam, longas e ondulantes cascatas vermelho rubi, caiam ao redor de sua cabeça até sua cintura; dançando em harmonia com o pulsar do universo. Sob sua pele translúcida, runas antigas brilhavam em prata e ouro, pulsando como constelações vivas. De seus olhos emanava o verde profundo das florestas que ainda iriam existir - dois faróis de sabedoria e o desejo de existir em uníssono com tudo.
Ela era o princípio. A beleza e o fogo, a primeira melodia do ser. Mas, no coração dessa luz infinita, havia uma sombra discreta: a solidão.
A solidão de Elyndria não era meramente a ausência de companhia; era um peso esmagador, uma corrente invisível que se estendia por toda a vastidão do cosmos recém-nascido, um eco silencioso em um universo que ela própria estava a moldar... Ela cantava tentando encontrar seus sentidos, mas só ouvia ecos.
Contudo, mesmo para um ser de poder tão imenso, a primeira e única centelha de consciência naquela imensidão, a vastidão que agora respondia à sua luz também servia como um espelho implacável de sua singularidade. E nessa condição única, nesse silêncio que apenas sua canção quebrava, avolumava-se seu desespero.
Assim foi decidido: criaria seu próprio lar!
Com pensamentos, ela puxava fios de pura energia do vazio, como um tecelão cósmico manuseando fios de luz incandescentes. Cada fio se retorcia, dando origem às primeiras estrelas, pontos de brilho solitários que pontilhavam a escuridão infinita. Ela as posicionava com cuidado, como joias, observando-as acender com uma beleza fria e distante.
Ela agitava as poeiras cósmicas, através de nuvens etéreas que espiralavam-se em movimentos lentos e majestosos... Sua vontade moldava essas nuvens em galáxias vastas e imponentes, cada braço estelar um testemunho de seu poder. Planetas surgiam de aglomerados de matéria, esferas inertes que orbitavam em suas estrelas mães, girando em um balé cósmico sem som.
Elyndria observava suas criações se expandirem, o universo ganhando forma sob seu olhar. Mas aquele vazio persistia em seu coração. As estrelas brilhavam intensamente, mas não direcionavam sua luz para ela. As galáxias rodopiavam em sua dança cósmica, mas não compartilhavam seus segredos. Os planetas giravam em silêncio, alheios à mão divina que os havia moldado.
Cada maravilha que ela criava, por mais grandiosa que fosse, permanecia muda, uma extensão inanimada de seu ser, incapaz de responder ao chamado profundo de sua criadora, de oferecer um olhar de compreensão ou uma palavra de companheirismo. Sua voz, a primeira melodia a romper o silêncio, ecoava solitária através do cosmos nascente, sem encontrar um retorno, sem um outro ser que pudesse compartilhar a maravilha e o peso daquela existência inaugural.
Para ela, o tempo não era uma sucessão de momentos mensuráveis, mas um oceano infinito no qual sua essência se via imersa, sem um vislumbre de começo ou fim. E nesse oceano de silêncio, sua voz continuava a ecoar... uma melodia cósmica sem um ouvinte, cada pulsar rítmico de uma nova estrela, cada sopro suave que dava origem a uma nebulosa incandescente, parecendo apenas reforçar a dolorosa verdade de que tudo o que existia havia emanado dela, mas nada permanecia verdadeiramente com ela.
Um anseio profundo, quase físico, consumia Elyndria. Ela ansiava por algo que não se desvanecesse no etéreo. Queria um olhar que a compreendesse, que refletisse sua própria luz. Não apenas o ato de criar, mas a alegria de dividir; não apenas o fardo de existir, mas a consolação de ser vista e se reconhecerem.
Em momentos de um quase desespero silencioso, enquanto contemplava a vastidão fria, a inspiração surgiu: moldar um ser semelhante a si mesma – não apenas uma criação subserviente, mas uma companhia genuína, alguém que pudesse compartilhar a eternidade e dissipar o peso silencioso da imensidão.
Assim, nasceu Kael.
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Crepúsculo de Sangue
FantasyQuando o amor divino se transforma em maldição, o destino reescreve a eternidade. Antes do tempo, Elyndria criou o universo - e com ele, Kael, seu reflexo sombrio. Quando o amor dele se tornou obsessão e traição, a guerra entre luz e trevas moldou a...
