Capítulo 1

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Helena

O coração parecia querer saltar pela boca. As mãos de Helena suavam friamente, um contraste bizarro com o ar-condicionado potente do hall de entrada que quase congelava o ambiente. Ela estava ali, parada diante da recepção de mármore polido e vidros espelhados, em um edifício que exalava o poder silencioso de uma multinacional. Tentava, com todas as suas forças, convencer-se de que não havia nada a temer. Era apenas uma entrevista. Apenas mais uma oportunidade.

Mas, para Helena, não era "apenas isso".

Fazia um ano e meio que havia se formado, e o peso da inutilidade profissional a esmagava. Todas as portas se fechavam com a mesma frase cortante: "precisamos de experiência". Uma lógica cruel que parecia criada para aprisionar os recém-formados.

Esse peso era insuportável. Helena estava cansada de ser um fardo para sua melhor amiga e o noivo. Eles a haviam acolhido sem pestanejar depois que seus pais faleceram tragicamente em um acidente há três anos. Eram tudo o que restava. O desejo de retribuir, de conquistar seu próprio espaço, sua liberdade e seu lugar no mundo era a mola propulsora que a fizera caminhar até ali. Sua vontade era um motor potente, mas a insegurança a freava.

— Bom dia, em que posso ajudar? — perguntou a recepcionista, impecável em seu blazer de corte perfeito, atrás do balcão.

— Eu... eu vim para a entrevista de emprego, no setor de design— respondeu Helen, lutando para manter a voz firme.

A recepcionista, com um sorriso medido e profissional, confirmou seu nome e indicou o caminho.
O elevador ficava à direita, ao fim de um corredor silencioso. A cada passo, seus sapatos de salto pareciam ecoar alto demais, um martelar que denunciava sua ansiedade. Dentro do elevador, ela respirou fundo, tentando dissolver o nó em seu estômago.

Olhou seu reflexo no espelho de bronze do elevador. Sua imagem era a de uma jovem que buscava parecer mais velha, mais séria. Ajeitou discretamente a blusa, passou a mão pelo cabelo com ondas e claro. Já havia superado as duas primeiras fases, e agora faltava apenas a entrevista cara a cara com o proprietário.

"Vai dar tudo certo," sussurrou, a frase mais como uma ordem do que um encorajamento, antes das portas se abrirem.

O andar da diretoria era um universo de elegância austera. Silencioso, frio, feito de linhas retas e obras de arte discretas. Havia uma tensão no ar, uma sensação de que cada pessoa apressada ali era uma engrenagem essencial de uma máquina gigantesca.

Ao passar por uma sala envidraçada, Helena percebeu olhares femininos a medindo, avaliando seu traje e sua postura. Uma sensação de estar sendo julgada antes mesmo de falar a primeira palavra a invadiu.

A secretária, quase inaudível, abriu a porta da sala principal e anunciou sua chegada. Helena entrou com passos contidos.

Lá estava ele: o Senhor Eduardo Montenegro.

Ele estava sentado atrás de uma mesa maciça de madeira escura, com as mãos cruzadas sobre o tampo. Sua figura era imponente e séria. Vestia um terno perfeitamente talhado, e seus olhos, de um azul gélido, a examinaram da cabeça aos pés com uma neutralidade cortante.
Eduardo Montenegro era a personificação do homem de negócios sério e impassível, sem sorrisos fáceis ou gestos desnecessários. Ele exalava o poder de quem não precisava provar nada a ninguém.

— Então, você é a candidata, Helena? — ele perguntou, com uma voz grave e firme, que não admitia réplicas.

Helena apenas assentiu, engolindo em seco, e sentou-se na poltrona que parecia propositalmente baixa e desconfortável.

A entrevista começou de imediato. Não havia calor ou informalidade. Eduardo Montenegro a interpelava com perguntas precisas, quase militares, sobre sua formação, sua capacidade de lidar com pressão, e sua visão de futuro na empresa. Helena respondia o melhor que podia, lutando para que a emoção não dominasse a lógica.

Ele a ouvia sem mudar a expressão, sem um aceno sequer, fazendo anotações concisas. Parecia que cada resposta era pesada em uma balança de precisão.

Ao final, Eduardo Montenegro não sorriu, nem demonstrou satisfação. Simplesmente fez um leve movimento de cabeça, um gesto que parecia ser a mais alta forma de aprovação que ele era capaz de expressar.

— Está contratada. Seu início será na próxima semana. Procure Isabela na recepção à frente; ela a encaminhará para o RH — ele concluiu, com a mesma voz firme, encerrando o assunto com uma finalidade absoluta.

Helena controlou a explosão de alívio e alegria que sentiu. Agradeceu com profissionalismo e, minutos depois, para sua surpresa, o próprio Senhor Eduardo fez questão de acompanhá-la brevemente pelos corredores. Enquanto caminhavam, ele a apresentava aos setores — comercial,criativo, TI —, falando sobre a história da empresa. Seu orgulho era evidente, mas era um orgulho frio, sempre enfatizando o quanto "ele" teve que sacrificar e o quão meticuloso era para manter o império.

Ao final do percurso, quando já se despediam, Eduardo Montenegro parou abruptamente.

— Helena, este é meu filho, Alexandre. Meu braço direito e Diretor Geral da empresa — disse o Senhor Eduardo, com uma pequena, quase imperceptível, variação em sua voz.

E então, Helena o viu.

Alexandre Montenegro era o oposto, e ao mesmo tempo a continuação, de seu pai. O terno era impecável, a postura era séria, mas havia uma energia contida nele, uma intensidade que o pai não possuía. Seus olhos, de um azul profundo, fixaram-se nos de Helena com uma voracidade inesperada. Não era apenas um olhar de avaliação; era um reconhecimento fulminante.

Ele estendeu a mão, o gesto firme, decisivo.

Quando a mão de Helena tocou a dele, uma corrente elétrica a percorreu dos dedos ao pescoço. O aperto foi breve, mas Helena sentiu como se o tempo tivesse congelado em um instante de suspensão vertiginosa.

O barulho do corredor, a voz do Senhor Eduardo, tudo desapareceu. Restou apenas o contato de pele, a força da mão dele e aqueles olhos, que pareciam sondar a alma dela em uma fração de segundo. Um arrepio gélido e, ao mesmo tempo, eletrizante percorreu sua pele. As borboletas em seu estômago se transformaram em um tumulto violento.

— Prazer — ele disse, com uma voz rouca e baixa, sem desviar o olhar fixo e penetrante.

— Prazer... — Helena mal conseguiu murmurar, sentindo seu rosto esquentar.

Ela puxou a mão de volta rapidamente, como se tivesse tocado em fogo, e se despediu de Eduardo Montenegro com pressa.

Helena caminhou para a saída, os passos apressados, a respiração curta. O coração não estava apenas acelerado; estava descompassado. Ela não sabia explicar o que havia acontecido, mas algo de profundo e impactante havia se movido dentro dela.

Naquele instante, no aperto de uma mão, seu objetivo de vida pareceu ter se tornado mais complexo, e o mundo, de repente, muito mais perigoso e emocionante.

Borboletas e CorrentesStories to obsess over. Discover now