Hilary Blake nunca acreditou em finais felizes.
Não quando crescera em um mundo onde promessas sempre se quebravam e amores morriam antes mesmo de florescer. Aos vinte e três anos, aprendera a se manter afastada, a sobreviver em silêncio, escondendo seus próprios desejos em páginas amareladas de livros que falavam sobre outros mundos, outras vidas, outras possibilidades.
Naquela noite, porém, os livros pareciam insuficientes. O vento frio atravessava as janelas mal fechadas de sua pequena casa no interior, sussurrando segredos que a faziam estremecer. Hilary estava inquieta. O coração batia em um ritmo estranho, como se algo a chamasse.
E então ela ouviu.
Um som baixo, grave, quase como o eco de um sussurro vindo da floresta atrás de sua casa. Não deveria ter saído. Não àquela hora, não naquela escuridão que parecia viva. Mas Hilary não resistiu.
Seguindo a voz, encontrou-se diante de um arco de pedra coberto por musgo, escondido entre árvores antigas. Jamais vira aquilo antes. Não fazia sentido estar ali.
No centro, um véu cintilante oscilava como água iluminada pela lua. O ar cheirava a ferro e terra molhada.
Hilary deveria ter recuado. Mas em vez disso, aproximou-se. A mão tremia quando tocou a superfície fria do portal.
E o mundo se quebrou.
Quando abriu os olhos, não estava mais em sua floresta.
O chão sob seus pés era de pedra negra, fria como gelo. À frente, um palácio se erguia — não de contos de fadas, mas de pesadelos. Torres góticas riscavam o céu vermelho-sangue, e correntes de prata desciam pelas muralhas como serpentes vivas.
Um arrepio percorreu sua espinha. Não era apenas o lugar que parecia vivo. O ar pulsava, como se estivesse impregnado de energia, e cada célula de seu corpo reagia a ele.
Foi então que ela percebeu: não estava sozinha.
Cinco pares de olhos a observavam.
Homens emergiam da sombra do salão à sua frente, cada um diferente, mas todos igualmente perigosos.
O primeiro — Kael — era um colosso marcado por cicatrizes, músculos tensos como de um guerreiro que nunca conheceu a derrota. Sua presença queimava como fogo, e Hilary sentiu a pele arder só de ser alvo de seu olhar.
O segundo — Lucien — vestia negro como se fosse feito dele. Seus lábios curvavam-se em um sorriso cruel, como se já soubesse de todos os segredos dela. Havia algo de viciante em seus olhos cinzentos: promessa de dor, prazer e destruição.
O terceiro — Dorian — não sorriu. Era o mais silencioso, o mais perigoso. Um príncipe da noite, olhos tão escuros quanto o abismo, e ainda assim brilhantes, como se refletissem todas as coisas que ela nunca ousou dizer em voz alta.
O quarto — Erevan — tinha uma beleza quase venenosa. Os cabelos longos e negros escorriam pelos ombros, e seu olhar era de pura provocação. O tipo de homem que beijava para envenenar, que tocava para possuir.
E o quinto — Rafael — parecia, à primeira vista, o mais doce. Traços delicados, quase angelicais, olhos claros que poderiam enganar qualquer um. Mas quando ele sorriu, Hilary percebeu que havia algo errado: havia poder demais naquela suavidade, como se fosse o lobo disfarçado em pele de cordeiro.
— A profecia estava certa — disse Lucien, quebrando o silêncio, a voz baixa, melódica e cruel. — Ela veio até nós.
Hilary recuou um passo, mas Kael avançou.
— Não fuja, pequena. — Sua voz era grave, quente como brasa. — Você atravessou o portal. Agora pertence a este reino.
— Pertence a nós — completou Erevan, sorrindo de canto, como um gato diante da presa.
O coração de Hilary disparava. Tudo nela gritava para correr, mas as pernas não obedeciam. Havia algo naquelas vozes, naqueles olhares, que a prendia mais forte do que correntes.
— Eu… não sei quem são vocês — ela conseguiu dizer, a respiração acelerada. — Quero voltar.
Dorian inclinou a cabeça, finalmente falando.
— Não há volta. Não para você.
Rafael deu um passo à frente, os olhos claros fixos nela.
— Não tenha medo, Hilary. — A maneira como pronunciou seu nome a fez estremecer. — Nós vamos cuidar de você.
Mas o modo como “cuidar” soou em seus lábios não era reconfortante.
Era uma promessa.
Ou uma ameaça.
Hilary foi levada para dentro do palácio. O salão principal parecia pulsar sob seus pés, cada parede adornada com símbolos que brilhavam em vermelho vivo. As chamas das tochas dançavam como se respirassem junto com ela.
Os cinco príncipes a rodeavam como predadores cercando a presa. Havia fome nos olhos deles, mas não apenas a fome comum. Era algo mais profundo, mais sombrio.
— Por séculos esperamos você — disse Lucien, sua voz deslizando como seda envenenada. — A chave. O sacrifício. A rainha perdida.
— Eu não sou nada disso — Hilary retrucou, embora sua voz traísse o medo. — Sou só… sou só uma garota normal.
Erevan riu baixo, aproximando-se tanto que o perfume dele — intenso, amadeirado e perigoso — a envolveu. Ele ergueu a mão e roçou os dedos no queixo dela, inclinando seu rosto para cima.
— Não. Você é tudo o que precisamos. E tudo o que desejamos.
Hilary sentiu o corpo reagir contra sua vontade. Um arrepio percorreu seu pescoço quando o toque dele desceu lentamente, quase como uma carícia inocente… quase.
Kael a afastou de súbito, puxando-a contra seu peito duro como pedra.
— Não toque nela como se fosse sua, Erevan. Ela não é sua.
— Ainda não — Erevan replicou com um sorriso.
Os olhos de Hilary se arregalaram. Aquilo não era apenas um encontro. Era uma disputa.
E ela era o prêmio.
Rafael segurou sua mão com suavidade, mas a força que havia em seus dedos não deixava dúvida: não havia como escapar.
— Confie em nós, Hilary. — Seus olhos brilhavam como gelo à luz das tochas. — Quanto mais resistir, mais difícil será.
Ela quis gritar, quis lutar. Mas a sensação que a dominava era outra: uma estranha mistura de medo e calor, de pavor e excitação proibida. Era como se o próprio corpo estivesse traindo sua mente.
Lucien inclinou-se, os lábios próximos ao ouvido dela, sussurrando:
— Este é o começo, pequena. Você é nossa agora. E nós… somos seus.
Hilary fechou os olhos, o coração martelando tão alto que parecia ecoar pelas paredes do salão.
Sabia que sua vida mudara para sempre.
O problema é que não sabia se ainda queria lutar contra isso.
O som das portas de ferro se fechando atrás dela ecoou como uma sentença.
E Hilary compreendeu: não havia mais volta.
A partir daquela noite, estaria presa em um conto de fadas distorcido, cercada por cinco príncipes que a desejavam tanto quanto precisavam dela.
E, no fundo, uma verdade terrível já a corroía:
Talvez parte de si quisesse ser possuída por eles.
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Corrompidos Pela Escuridão
FantasyHilary Blake sempre viveu à sombra de uma vida comum, acreditando que sua existência jamais teria algo de extraordinário. Mas, ao atravessar um portal banhado pela lua, ela é arrastada para um mundo impossível — um reino de príncipes encantados, por...
