Com quinze anos, eu finalmente compreendi meu lugar na sociedade. Apesar de vir de uma família rica, nunca me foi permitido sair de casa ou frequentar a escola como meus irmãos. Estes, por sua vez, sequer me tratavam como alguém de fato pertencente à família.
Os mais velhos, Victor e Alaric, pareciam gostar de mim, mas evitavam demonstrar isso na frente de nossos pais. Já Elena, a mais nova, era paparicada por todas as gerações dos Lorneval. A única pessoa que me procurava, e que de fato aparentava gostar de mim, era Vicent, meu vizinho.
Os Clinfs, embora assustadores, eram de uma beleza perturbadora: todos iguais, com cabelos tão loiros que se confundiam com o branco da luz e olhos de um azul profundo, como a noite mais silenciosa. Entre eles, Vicent, o mais novo, era quem mais se aproximava de mim. Vivia fugindo para minha casa, sempre antes da escola, para que ninguém desconfiasse. Assim crescemos, cultivando nossa amizade em segredo — ninguém poderia saber que ele se associava a alguém como eu.
Nossos dias terminavam sempre da mesma forma: com risos cansados sob a sombra generosa da grande árvore do quintal. Mas naquela manhã, algo se rompeu na ordem das coisas. Vicent chegou tomado por uma fúria incomum, o rosto avermelhado, os pés inquietos chutando a grama como se quisesse feri-la. Ergui os olhos da tela que segurava nas mãos e perguntei, num tom quase sussurrado:
— Está tudo bem?
Ele respondeu com um grito abafado, a voz trêmula:
— Bem? Está tudo horrível! Papai trouxe um mendigo para dentro de casa e agora exige que o chamemos de irmão!
Encarei Vicent com espanto. Não era comum vê-lo tão alterado; ele costumava ser doce, quase ingênuo, sempre rindo entre mordidas de biscoito. Mas agora, a fúria faiscava em seus olhos azuis.
— Um irmão? — repeti, tentando compreender. — Mas... quem é ele?
Vicent apertou os punhos, ficando ainda mais vermelho de raiva.
— Não é ninguém. Um menino sujo, de rosto marcado, com olhos estranhos... não consigo entender como papai aceitou trazer aquela coisa para casa — cuspiu as palavras, e por um instante percebi que ele encarava meus cabelos, como se esperasse uma reação minha.
Senti um arrepio atravessar minha espinha.
— Ele... se parece comigo? —
Já havia me acostumado à diferença entre mim e os Clinfs, mas Vicent jamais havia colocado isso em voz alta. O menino segurou meu olhar por alguns segundos, voltou a encarar meus cabelos e então completou:
— Sim. Ele é um Manchado.
Era como se uma rachadura se abrisse, expondo algo que sempre esteve ali, mas que todos fingiam não ver.
— Papai diz que devemos aceitá-lo — continuou Vicent, chutando mais forte a grama, como se pudesse esmagar a própria frustração. — Mas eu não quero. Ele não é como nós...
As palavras dele ficaram suspensas no ar, densas, enquanto me encarava. Havia uma verdade cruel naquela recusa: os Clinfs eram perfeitos demais para suportar a presença do diferente.
Olhei para além da cerca, onde a casa impecável da família se erguia sob a luz da manhã. Uma sombra movia-se atrás das cortinas azuis. Talvez fosse o tal forasteiro, o “irmão” rejeitado. Talvez fosse apenas a minha imaginação, já contaminada pela curiosidade de finalmente ver alguém como eu.
Foi então que Vicent se virou para mim, os olhos marejados, mas firmes, e disse aquilo que eu já sabia, mas fingia não perceber:
— Mamãe nunca irá aceitar um Sangrado na família.
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Sangrados
FantasyEm um reino medieval onde o medo da magia molda o destino das famílias mais poderosas, toda criança nascida com a marca dos feiticeiros tem seus dons selados ao nascer. Entre os mais temidos estão os Sangrados, capazes de manipular o sangue e transf...
