Prólogo

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O vento batia forte contra meu vestido azul-escuro, levantando a barra do tecido e bagunçando os cachos ruivos que chicoteavam meu rosto. Segurava com força o chapéu contra a cabeça, tentando preservar um mínimo de dignidade contra a ventania. O outono em Londres sempre foi minha estação preferida. As folhas alaranjadas que cobriam o chão, o ar fresco e úmido, a promessa silenciosa de que o inverno logo chegaria... sempre houve algo de belo nessa transição. Mas para aquilo, para aquele momento, eu não estava preparada.

— Oliver, por favor... — murmurei, esfregando a têmpora com a mão esquerda enquanto meu filho de três anos se agarrava à barra do meu vestido, resmungando em protesto.

— Filha, pode me ajudar? — pedi, exasperada.

A menina se aproximou com passos firmes, uma cópia em miniatura de mim mesma. Segurou o irmão com delicadeza, convencendo-o a soltar o tecido. Os olhos escuros dela, tão profundos e expressivos, fixaram-se nos meus. Aquele olhar... o mesmo que um dia me roubara o fôlego.

— Que horas você vem nos buscar? — perguntou, séria, como se fosse mais velha do que realmente era.

— No mesmo horário de sempre, querida. — Acariciei seu rosto, deixando o coração apertar diante da semelhança impossível de ignorar.

Ela suspirou e murmurou, como se fosse um segredo que não devia ser dito em voz alta:

— Não gosto de ficar com o vovô.

Não pude evitar o riso baixo. Inclinei-me, confidenciando de volta:

— Eu sei. Mas temos um acordo, lembra?

Ela revirou os olhos, gesto tão familiar que um arrepio percorreu minha espinha. Para aliviar a tensão, acrescentei:

— Prometo trazer aquela torta de abóbora que vocês tanto gostam.

A expressão dela mudou imediatamente, o tédio dando lugar a um sorriso largo e cheio de expectativa. Concordou em silêncio, levando o irmão pela mão até a porta da casa dos avós. A mulher loira que os recebeu lançou-me apenas um aceno breve antes de fechar a porta.

Fiquei parada por um instante, observando a porta fechada, tentando organizar a bagunça de sentimentos dentro de mim. Depois respirei fundo e segui pela rua em direção ao centro. Poderia ter aparatado, claro. Mas a tarde estava tão bonita que decidi aproveitar o caminho.

Foi então que ouvi.

Uma voz grave, rouca, saída da sombra de um beco próximo.

— Olá, Rosalie.

Meu corpo congelou. O coração disparou em um ritmo frenético, os dedos apertando o tecido do vestido sem que eu percebesse. Virei lentamente o rosto, temendo acreditar no impossível.

E lá estava ele.

Sebastian.

Saía da escuridão como um fantasma do passado. Os cabelos estavam maiores, caindo em mechas desgrenhadas sobre a testa. O rosto, marcado pela palidez, fazia suas sardas parecerem ainda mais evidentes, quase gravadas em fogo contra a pele. Os olhos escuros, fundos e cansados, denunciavam noites sem dormir, anos de tormento. Estava magro, abatido, mas ainda havia nele algo indomável, uma chama teimosa que o tempo e a prisão não conseguiram apagar.

Meus lábios tremeram ao pronunciar seu nome.

— Sebastian...

Ele sorriu de lado, mas não havia alegria naquele gesto. Apenas dor. Apenas lembranças.

I Know a place - Sebastian SallowStories to obsess over. Discover now