A floresta ao redor de Nevermore sempre tivera seus segredos, mas naquela noite parecia mais densa, como se respirasse junto com as criaturas que nela habitavam. O vento soprava carregado de umidade e cheiro de musgo, os galhos retorcidos faziam sombras que lembravam braços tentando agarrar qualquer um que ousasse passar. Wednesday caminhava entre eles sem pressa, botas negras afundando levemente na terra úmida. Na mão esquerda, segurava um livro antigo, de capa gasta e bordas manchadas pelo tempo. Na direita, a lanterna que roubava da zeladoria.
Ela nunca foi fã de luz, a escuridão lhe parecia mais honesta, mas precisava enxergar as linhas da invocação que havia marcado.
O barulho atrás dela a fez parar. Folhas se remexendo, galhos quebrando. Não era uma criatura comum; ela já aprendera a distinguir. Wednesday ergueu os olhos e esperou.
A lua cheia surgiu entre as copas das árvores, revelando a figura que ela já reconheceria de qualquer jeito: um vulto prateado, musculoso, com olhos brilhando em dourado. O uivo que ecoou pela floresta fez qualquer alma covarde tremer, mas Wednesday apenas suspirou, quase entediada.
— Enid. — Sua voz foi baixa, mas carregada de firmeza. — Você poderia, ao menos, tentar não soar como um estereótipo canino cada vez que me segue?
A loba deu dois passos à frente. Seus olhos se fixaram nos dela, intensos, mas havia algo mais além da fúria selvagem. Algo… humano.
Wednesday fechou o livro e prendeu-o contra o peito. Ela não era alguém inclinada a sentimentalismos, mas mesmo para ela era impossível ignorar a inquietação que crescia ao ver a colega presa naquela forma, dia após dia. Desde a última batalha contra as criaturas que ameaçaram Nevermore, Enid não voltara a ser humana. Não era apenas a lua que a mantinha assim, mas uma maldição, ou, como Wednesday preferia chamar, uma inconveniência arcana.
— Se você espera que eu jogue um galho para você buscar, desista. — Ela arqueou uma sobrancelha. — Estou aqui por outro motivo.
A loba inclinou a cabeça, como se tentasse compreender. Wednesday sabia que, de alguma forma, Enid ainda a entendia.
Ela pousou a lanterna no chão, abriu novamente o livro e começou a organizar os objetos que trouxera: um punhado de velas pretas, um círculo de sal, e uma adaga prateada. Nada de cor-de-rosa, nada de brilhos. Enid provavelmente reclamaria da estética sombria, se tivesse voz. Mas era justamente o que tornava tudo suportável.
— Devo confessar — disse Wednesday, enquanto acendia as velas uma a uma — que não costumo fazer nada sem interesse próprio. A ideia de devolver-lhe sua forma humana poderia, em tese, parecer um gesto altruísta. Mas a verdade é que você tem sido... irritante. Uivar de madrugada, arranhar portas, tentar morder carteiros. Não tenho paciência para vizinhos problemáticos.
Enid rosnou baixo, um som que parecia quase uma risada abafada. Wednesday manteve o rosto impassível, mas a pequena curvatura de seus lábios poderia ser confundida com algo perigosamente próximo a um sorriso.
Ela se ajoelhou diante do círculo e recitou em voz baixa os primeiros versos do ritual. O ar pareceu ficar mais pesado, como se a floresta prendesse a respiração. As chamas das velas tremularam, e a sombra de Wednesday se alongou de maneira antinatural.
Enid deu um passo hesitante para dentro do círculo. Seus olhos brilhavam com uma mistura de esperança e medo. Wednesday ergueu a adaga, cortou a ponta de seu dedo e deixou que o sangue pingasse sobre o sal.
— Este ritual exige uma troca. — Sua voz se manteve calma, quase indiferente. — Nada vem sem custo.
A loba a encarava com intensidade, mas não recuou.
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ritual - Wenclair
FanfictionOnde Wednesday faz um ritual para Enid voltar à sua forma humana.
