A casa de madeira rangia a cada vento que soprava pelas frestas. O telhado deixava entrar gotas de chuva nos dias mais fortes, e as paredes descascadas denunciavam os anos de descuido. Jhessy estava sentada em um banquinho gasto, abraçando o violoncelo como se fosse seu único amigo. Para ela, aquele instrumento não era apenas madeira e cordas - era a ponte entre a vida que tinha e a vida que sonhava.
No cômodo ao lado, o som de uma garrafa batendo contra a mesa ecoou, seguido pela voz embriagada de seu pai.
- Onde está minha comida, Clara? - a voz grossa soava mais como um trovão do que como uma pergunta.
A mãe de Jhessy, com o avental manchado de molho, correu para colocar o prato diante dele.
- Está aqui, Roberto, acabei de servir...
O homem empurrou o prato com força, espalhando arroz pelo chão.
- Frio! Sempre frio! Você não faz nada direito! - e, sem pensar, deu um tapa que a fez cambalear para trás.
Jhessy fechou os olhos com força. Não era a primeira vez que via aquilo, e a dor era tão familiar quanto o som das cordas do violoncelo. As lágrimas insistiram em descer, mas ela as engoliu. Não queria que o pai percebesse sua presença. Quando ele bebia, qualquer olhar podia ser interpretado como afronta.
Segurando o arco com as mãos trêmulas, ela deslizou sobre as cordas. Uma melodia baixa e triste começou a preencher o quarto. Cada nota carregava o peso do que não conseguia dizer em voz alta. Era o único jeito de não gritar, de não implorar, de não se quebrar por completo.
Clara entrou no quarto minutos depois, com o rosto marcado pela força da bofetada. Tentou sorrir.
- Continua tocando, filha... é a única coisa bonita que essa casa ainda tem.
Jhessy baixou o arco.
- Mãe, eu queria poder te proteger.
Clara se aproximou, acariciando seus cabelos longos.
- Você já me protege, meu amor. Quando toca, eu esqueço um pouco de tudo isso. Parece que estou em outro lugar, onde não existe dor.
O coração da jovem apertou. Queria poder acreditar nisso também. Queria que as notas tivessem poder de mudar a realidade, mas quando o som cessava, o silêncio trazia de volta a miséria.
Naquela noite, quando o pai finalmente desabou no sofá, vencido pela bebida, Jhessy abriu a janela do quarto e olhou para o céu. Não havia estrelas - apenas nuvens pesadas escondendo qualquer sinal de esperança.
- Deus... - sussurrou, quase sem voz -, se o Senhor realmente me ouve, por favor, me mostra um caminho. Só um...
Abraçou o violoncelo novamente, como quem segura uma âncora para não afundar. Tocou uma última canção, suave, quase como uma prece. E, sem perceber, adormeceu com a testa apoiada no braço do instrumento.
A música, sua única salvação, embalava seus sonhos. Mas, no fundo, Jhessy sabia: cedo ou tarde, precisaria escolher entre continuar sobrevivendo dentro daquela casa... ou arriscar tudo para seguir a melodia que insistia em chamá-la para fora dali.
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SOBREVIVENDO
RomanceConto a história de Jhessy, uma garota que enfrenta dificuldades familiares, lida com seu pai alcolatrá e agressivo... Será que essa história terá um final feliz? Será que a história de Jhessy é única?... (aviso: gatilhos)
