I. E se eu...

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"E se eu fosse feita apenas para ele?"

Era uma pergunta que latejava em silêncio no fundo da minha mente, mesmo quando eu tentava me convencer de que odiava Colin Bridgerton. Desde a noite em que minhas próprias orelhas ouviram a sentença que jamais deveria ter sido dita — aquela frase cruel, tão desprovida de hesitação que parecia não apenas verdadeira, mas definitiva: "Nunca a cortejaria." Eu me lembro do riso abafado dos rapazes, da forma como as palavras atravessaram a sala e pousaram sobre mim como punhais invisíveis. Eu não era feita para ele, não era feita para ninguém, a não ser para ser ignorada, observada às escondidas, ridicularizada em silêncio.

Os dias seguintes me ensinaram a erguer muros. Aprendi a sorrir sem sorrir, a desviar o olhar, a prender o ar dentro do peito até que a dor se transformasse em algo suportável. Mas havia noites em que as lágrimas manchavam o travesseiro, e eu repetia para mim mesma, com raiva amarga: que bom que nunca me cortejaria, que bom que nunca serei de Colin Bridgerton. Se eu dissesse em voz alta, talvez o universo acreditasse.

Ele viajou pouco depois. E eu respirei como quem finalmente se liberta de uma prisão e, ao mesmo tempo, como quem perde um pedaço do próprio corpo. Eu não sabia o que era pior: a ausência dele ou a lembrança cortante das palavras.

Meses se tornaram anos, e minha vida seguiu no compasso do invisível. Até o dia em que o destino, caprichoso e cruel, decidiu devolvê-lo às minhas manhãs.

Foi numa tarde em Aubrey Hall, quando o salão de música parecia demasiado pequeno para o tamanho dos sussurros e para o peso da presença dele. Eu não precisava vê-lo para saber que ele estava ali — o ar mudou, tornou-se mais denso, mais carregado. O som da risada dele atravessou o corredor como uma lâmina, e minhas mãos suaram antes que meus olhos ousassem encontrá-lo.

Colin Bridgerton havia voltado.

Mas não era o mesmo rapaz que partira. Aquele que retornava carregava a sombra do mundo nos ombros, a pele levemente mais bronzeada das viagens, a postura mais ereta, a voz mais firme. Os olhos — ah, os olhos — estavam mais profundos, como se guardassem segredos que nenhum mapa poderia registrar.

E, no entanto, quando se voltaram para mim, senti uma dor conhecida, um estilhaço do passado me cortando outra vez. O coração quis se enganar, correr ao encontro dele, mas o orgulho se ergueu como muralha.

— Penélope... — disse ele, e meu nome soou de uma forma que nunca havia soado antes, como uma confissão sufocada.

Afastei-me, recuando um passo.
— Lorde Bridgerton.

A formalidade o feriu mais do que qualquer bofetada. Eu vi, porque eu sempre vi demais quando se tratava dele.

Ele tentou sorrir, tentou falar de viagens, de terras distantes, de mares e horizontes. Mas eu ouvia tudo como quem ouve um idioma estranho. A cada palavra, minha mente repetia: nunca a cortejaria, nunca a cortejaria, nunca a cortejaria.

Ele se aproximou. Eu recuei. Ele estendeu a mão. Eu a mantive presa contra as dobras da saia.

E foi nesse jogo de fuga e perseguição que algo estranho começou a crescer em mim. Primeiro, um calor que não combinava com a brisa fresca daquela tarde. Depois, um latejar baixo, escondido entre minhas pernas, como se meu corpo tivesse decidido rir da minha tentativa de ódio.

Eu não compreendia. Só sabia que não era normal.

Colin percebeu antes de mim. Sempre percebeu. Vi a contração nos maxilares, o franzir quase imperceptível da testa, o modo como os olhos dele se estreitaram — não em raiva, mas em alerta. Como se houvesse reconhecido algo em mim que nem eu mesma ousava admitir.

— Você não está bem. — disse, baixo, tão baixo que ninguém além de mim poderia ouvir.

Senti a pele arder, mas respondi com frieza.
— Estou perfeitamente bem.

Era mentira, e ele sabia.

Mas havia uma verdade ainda mais cruel, aquela que sempre me acompanhara antes mesmo de Colin abrir a boca para negar meu valor. Eu nunca havia mostrado sinais ômega. Nenhum. Nenhum cio, nenhum perfume, nenhum traço que me diferenciasse de uma beta comum. Era como se meu corpo tivesse escolhido o silêncio. E a sociedade sabia julgar esse silêncio melhor do que qualquer outra coisa.

Aos olhos dos outros, eu era apenas uma moça curvilínea demais para ser cortejada, filha de uma família que perdera a fortuna e a esperança, sem beleza clássica, sem dote generoso, sem cheiro que pudesse atrair um alfa. Uma flor de parede esquecida, que só os Bridgerton pareciam notar de vez em quando por mera cortesia. Eloise, minha melhor amiga, era o oposto exato: uma ômega desejada, rebelde contra o próprio destino, alvo de olhares e cochichos. Eu? Eu era o adorno invisível ao lado dela, a sombra sem perfume, o corpo escondido sob tecidos pesados.

E talvez por isso as palavras de Colin tenham me destruído tanto. Não era apenas ele dizendo que não me cortejaria. Era o mundo inteiro confirmando o que já sabiam: que eu nunca seria escolhida.

A noite caiu pesada, e o quarto parecia pequeno demais para o calor que se espalhava em mim. O travesseiro estava úmido de tanto que minha pele suava, e não era pelo verão. Era como se um fogo silencioso tivesse se acendido dentro de mim, subindo em ondas, deixando meu ventre latejante e meus seios sensíveis ao mínimo toque do lençol. Eu virava de um lado, depois do outro, mas nada trazia alívio. O calor só crescia, desobediente, pulsando em lugares que eu jamais ousaria confessar em voz alta.

Fechei os olhos, tentando buscar calma, mas o sono não trouxe descanso — trouxe imagens. O rosto de Colin, mais sombrio do que eu lembrava, pairava entre sonho e delírio. Eu o via se inclinando sobre mim, os lábios quase roçando minha pele, e era como se o corpo inteiro estremecesse em resposta a algo que nunca havia acontecido de fato. O som grave da voz dele, misturado ao cheiro que parecia surgir da memória, me arrancava suspiros que eu tentava abafar no travesseiro.

Despertei com os lençóis enrolados nas coxas, o coração disparado, e uma umidade vergonhosa entre minhas pernas. Toquei de leve o próprio ventre e me encolhi, assustada com a sensibilidade absurda. Era como se minha própria pele não fosse mais minha, como se cada nervo tivesse se transformado em centelha.

"Não pode ser... não pode ser isso", murmurei para mim mesma, sentando na beira da cama. Eu sempre fora considerada beta, sem cheiro, sem cio, sem instinto. Sempre. E agora meu corpo parecia zombar de toda aquela certeza.

O dia seguinte me encontrou pálida, escondida sob camadas de tecido que não abafavam a febre. A cada corredor de Aubrey Hall, eu arquitetava rotas de fuga: pela biblioteca, pelos jardins, pelos salões, qualquer caminho que me livrasse dele. Mas Colin estava em todos os lugares. E em todos, os olhos dele me encontravam.

Era perseguição silenciosa, predatória, e eu sabia. Quando entrei no salão de música, os dedos nas teclas do piano tremeram sob o peso do olhar dele, encostado ao batente como se esperasse apenas que eu me rendesse.

— Não me olhe assim. — murmurei, sem conseguir me conter.

— Como estou olhando? — ele retrucou, e o tom grave vibrava na minha espinha.

— Como se houvesse algo em mim que o interessasse.

Ele não negou. Apenas caminhou em minha direção, lento, com passos que me fizeram prender a respiração. Quando se inclinou levemente atrás de mim, o calor do corpo dele me envolveu como sombra e brasas ao mesmo tempo.

— Há, de fato, algo em você. — murmurou, baixo o bastante para ser indecente. — E você sabe.

Levantei-me tão rápido que quase derrubei o banco, e saí do salão sem olhar para trás. Mas as palavras dele ficaram cravadas em mim, queimando como ferro em brasa.

Naquela noite, a segunda consecutiva, o sono não veio. O corpo queimava, os seios latejavam, o ventre pulsava, e cada parte de mim gritava pelo nome que eu odiava. Quando finalmente adormeci por instantes, foi apenas para acordar suada, úmida, os lençóis torcidos entre minhas pernas.

Eu mordi o travesseiro para não gemer em voz alta. Eu tremi, tentando negar o inevitável.

Mas, no fundo, um sussurro me assombrava:
E se eu fosse feita apenas para ele?

Marcados pelo instintoStories to obsess over. Discover now