000 - Prologo

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Rio, 2016

O silêncio do vestiário parecia gritar mais alto do que os torcedores minutos antes. O cheiro de suor, de vitória amarga, ainda pairava no ar. Isabella entrou apressada, o rosto marcado pela mistura de cansaço e expectativa, como se esperasse respostas que Gabi já não estava disposta a dar.

— Você vai me ignorar até quando? — Isabella disparou, jogando a mochila no banco de madeira com força.

Gabi nem ergueu os olhos enquanto tirava a camisa do uniforme. A expressão era fechada, fria. O que antes tinha sido cumplicidade, agora parecia indiferença calculada.

— Não é hora pra isso, Isabella. — a voz dela saiu seca, quase cortante.

Isabella riu sem humor, uma risada amarga que soou como uma lâmina.

— Engraçado... nunca é hora, né? No quarto você me puxa, me beija como se eu fosse o ar que você precisa pra viver. Mas aqui fora? Você age como se eu fosse nada.

A frase ecoou, mas não arrancou reação imediata. Gabi demorou alguns segundos, até bater a porta do armário com brutalidade. Os olhos dela, escuros e carregados, finalmente se voltaram para Isabella.

— Porque você é nada, Isa. Nada na minha vida além de um erro que eu não devia ter cometido.

As palavras caíram como socos, e Isabella sentiu o ar lhe escapar dos pulmões.
— Você não pode estar falando sério...

— Mais séria do que nunca. — Gabi avançou, a voz aumentando, pesada, afiada. — Eu não tenho tempo pra lidar com drama adolescente. A gente transa, a gente se pega, ótimo. Mas não se ilude achando que isso significa alguma coisa. Você não passa de distração.

Isabella mordeu o lábio, tentando conter o tremor da voz.
— Eu não sou como as outras, Gabi. Você sabe disso.

— E é exatamente por isso que eu devia ter te cortado antes. — Gabi rebateu, cruel. — Você se apega, cria novela na cabeça, acha que eu vou assumir alguma coisa. Eu não vou. Eu nunca vou.

O silêncio voltou, mas dessa vez era ensurdecedor. Isabella engoliu em seco, os olhos marejados, sem conseguir responder. Cada palavra tinha se alojado fundo demais.

Gabi pegou a bolsa, já de saída, mas virou-se uma última vez.
— Faz um favor pra você mesma, Isa: para de confundir tesão com sentimento.

E saiu, deixando Isabella sozinha no vestiário, com o barulho da porta batendo ecoando como ponto final.

Unsaid - Gabi Guimarães Histórias para pegar e não largar. Descubra agora