Capítulo 01- Primeiro dia

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Billy

A juventude… dizem que é a fase mais bonita da vida. O auge, o tempo das descobertas, das festas, das paqueras, dos primeiros namoros e, quem sabe, até do primeiro amor. Eu cresci acreditando nisso. Imaginava que minha adolescência seria igual aos filmes que eu assistia: a nova garota que chega à escola, conquista amizades incríveis e acaba se apaixonando pelo menino mais bonito e encantador da turma.

Mas a verdade é que nada disso aconteceu. Ficou tudo preso no meu imaginário, como um roteiro que nunca saiu do papel. A vida fez questão de me provar, cedo demais, que os sonhos são frágeis. Primeiro veio a pandemia — como uma sombra — que roubou dois anos da minha adolescência e me deixou presa, assistindo os dias passarem pela janela. Quando finalmente voltei para a escola, já era oitavo ano.

E mesmo depois de tanta espera, eu ainda acreditava que poderia brilhar, que talvez, enfim, seria vista. Queria ser popular, ou pelo menos, querida. Mas o que recebi no meu primeiro dia de volta foi apenas silêncio, olhares julgadores e a sensação sufocante de não pertencer. Tudo o que consegui foi… passar vergonha.

Lá estava eu, plena, 12h45, atrasada, tentando encontrar minha sala de aula. Não me lembro exatamente como cheguei até lá, só sei que, quando entrei, todos já estavam acomodados, como se o mundo tivesse seguido normalmente sem mim. Peguei o primeiro lugar vazio que vi e me sentei. Por azar — ou destino — fiquei ao lado de um grupo… digamos, questionável.

Me entrosar com outros adolescentes sempre foi um desafio. Principalmente com meninos. Mas, para ser sincera, ninguém naquela sala parecia disposto a facilitar minha vida. Não vou me alongar descrevendo cada personagem, afinal, muitos deles nunca terão importância real nessa história. Mas, para resumir, havia de tudo: os héteros “top” que se achavam os reis da comédia, as fofoqueiras de plantão, as falsas que viviam de máscara, as mentirosas compulsivas, as “pick me girls” e até os emos perdidos no tempo. Era como um catálogo humano daquilo que eu menos queria enfrentar.

Naquela época, eu não entendia muito bem o peso daquela frase: “diga-me com quem andas e te direi quem és”. Ingênua, acabei tentando me aproximar de um grupinho de meninas que claramente não queriam minha presença. Não demorou muito para que eu percebesse o quanto aquilo era humilhante. Passei as três primeiras aulas tentando puxar conversa, tentando forçar uma aproximação, e, em troca, só recebi olhares frios, sorrisos forçados e uma sensação devastadora de exclusão. Era como se minha simples existência fosse um incômodo.

Mas a pior parte do primeiro dia ainda estava por vir: as apresentações. Sempre me perguntei por que os professores adoravam essa tortura coletiva. A gente nunca sabe o que dizer, nunca entende qual seria a medida certa entre se expor demais ou parecer desinteressante. E eu, com meu dom natural para me enrolar, acabei transmitindo exatamente a imagem que não queria: a de uma esquisita, boba, sem graça… “songa monga”, como diriam.

Faltava-me senso, talvez até um pouco de malícia. Eu acreditava que tudo seria mais leve, que as pessoas poderiam me enxergar de forma gentil. Mas não. Ali, em 2022, eu descobri que a escola podia ser um palco cruel — e eu não sabia qual papel me cabia.

A professora começou a dar aula. Não tenho certeza absoluta de qual era, mas acredito que fosse a de matemática. O nome dela? Denise. Fisicamente, era uma mulher de mais ou menos cinquenta anos, cabelos ruivos cacheados, óculos de grau… uma figura que lembrava muito a Velma do Scooby-Doo. Tanto que esse virou o apelido dela entre os alunos. Confesso que achei engraçado, mesmo que, no fundo, fosse cruel.

Como professora, porém, Denise não era exatamente inspiradora. Para falar a verdade, parecia perdida no próprio conteúdo. E foi aí que começou a parte que eu mais temia: as apresentações. Ela se apresentou primeiro e, em seguida, decidiu que iríamos nos apresentar fileira por fileira — começando pela que ficava encostada na parede, perto da porta, até chegar à última, ao lado da janela. Justamente onde eu estava.

JUVENTUDEWhere stories live. Discover now