- Infância, Juventude e Despedida -

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Vila Militar(1849)

Ali estava Ney, novamente apanhando do pai por nenhum motivo, e mesmo assim, recusando-se a chorar. Um menino de oito anos com uma força emocional absurda, crescendo rodeado de tabus que tentavam prendê-lo em uma gaiola abstrata de medo e julgamento.

Os irmãos mais velhos assistiam a cena com pavor nos olhos, mas sabiam que se tentassem impedir seriam agredidos também, e Ney sofreria com a culpa, além da dor física. Os tapas ardidos que levava em sua cabeça abalavam seu corpo esguio, mas nunca o atingiam além disso. Seu pai gritava, ordenando que ele chorasse, mas ele não iria, não conseguia.

Chora! Chora! Eu mandei você chorar agora! – Antônio gritava, jogando a cabeça do filho de um lado para o outro, puxando-o pelos cabelos.

— Não vou chorar.

— Chora!

— Eu não vou.

— Chora, rapaz, chora!

Ney continuava encarando o pai com um olhar frio, sem nem marejar os olhos.

Chora! Chora! – estapeava os braços do menor com força.

— Chora logo, Ney! – seu irmão mais velho grita, não aguentando mais ver o caçula naquela situação.

— Não vai chorar, não?! – chacoalha o filho pela gola da camiseta. — Não vai chorar, não?! Hein, você não vai chorar?! – joga Ney no chão.

— Tira essa roupa!

O velho obrigou-o a tirar a roupa e ficar só de cueca sentado no chão do pátio frio, na frente de todos os vizinhos que observavam tudo, escondidos.

— O quê é isso, Antônio? – a mãe de Ney vê a cena e tenta impedi-lô. — Antônio, para! Para com isso! Para!

— Pra você aprender a ser homem! – o velho esbraveja, apontando o dedo na cara do pequeno.

— Antônio, para!

— É pra deixar seu filho aí! – entra em casa pisando forte.

— Pra dentro, vocês! Passa pra dentro! – a mulher avisa os outros dois filhos, querendo poupá-los de tal cena. — O que quê ele fez, Antônio?

— Não interessa! – gritou.

A mãe do pequeno voltou e o levou para dentro, mesmo sob os protestos do marido, para tirá-lo dos olhares julgadores dos vizinhos que fitavam a cena com horror e confusão nos olhos.

Antônio foi até seu escritório, resolver coisas de papelada, com a sua habitual expressão irritada, enquanto Ney se vestiu e depois foi até a cozinha, sentando-se em uma cadeira, observando a mãe cortar alguns legumes, com a cabeça deitada na mesa e a feição cabisbaixa.

— Tomara que um caminhão atropele esse desgraçado... – Murmurou.

A mulher olhou para ele com uma expressão confusa e levemente irritada, talvez estivesse se questionando se tinha ouvido certo as palavras do filho, se aproximando dele.

— Como é que é? – ela segurou o queixo dele, mas com delicadeza. – Nunca mais diga uma coisa dessas, ouviu? – Ney assentiu com a cabeça, ela soltou seu rosto e suavizou o olhar para ele.

No Outro Dia

A mãe de Ney levou-o para assistir a uma apresentação com ela, a mulher estava impecável, com um vestido azul florido e cabelo escovado, sua beleza facilmente pararia um trânsito inteiro naquele momento. Ela o conduz até as cadeiras, segurando sua mão, quando o apresentador começa a falar.

Homem Com H - Ney MatogrossoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora