O sangue era o único cheiro que dominava aquele lugar, impregnado no ar, pesado e sufocante. Junto a ele, o corpo de Gi-hun completamente imóvel. Seus olhos ainda estavam abertos, mas sem um fio de vida. Olhar vazio, carregado de promessas quebradas. Havia raiva ali, por ter sido enganado de novo por aqueles em quem confiara. Havia tristeza, pelo objetivo falhado de salvar a todos. Mas havia também algo que In-ho não conseguiu nomear. Gi-hun, mesmo em seus últimos instantes, morreu com humanidade. Provou que nem todos os seres humanos eram lixo. Provou que, mesmo no inferno dos jogos, ele permaneceu sendo humano.
In-ho estava tão perto. Tão perto de algo divino. Tão perto daquilo que jurara ter perdido há tanto tempo. Gi-hun era a prova de que ainda existia algo puro, mesmo em meio ao horror. In-ho se ajoelhou ao lado do corpo, o sangue fresco encharcando seus joelhos. Os olhos começaram a arder, e em segundos, lágrimas silenciosas já deslizavam por suas bochechas. A máscara caiu -não aqui ele usava durante os anos mas a que escondia tudo o que ele era. Ali, naquele instante, In-ho não era o Frontman. Não era o líder do massacre, nem a figura respeitada e temida. Era apenas um homem quebrado por dentro.
Ele se inclinou, puxando Gi-hun para algo que parecia um abraço. Quando o rosto frio encostou em seu ombro, In-ho desabou em silêncio. Sua respiração falhava, descompassada. As mãos, cobertas pelas luvas de couro, apertaram o terno ensanguentado do jogador 456. Depois subiram lentamente até os cabelos curtos, mexendo neles com uma delicadeza que não tinha há anos. A mão desceu, vagarosa, passando pela testa, bochechas, contornando o maxilar. Tudo em Gi-hun o fascinava, tudo nele era encantador, mesmo agora, imóvel, morto.
Por um instante, os olhos de In-ho se fixaram na boca dele. Sentiu o impulso de se aproximar mais, mas conteve-se. Encostou apenas sua testa à de Gi-hun, permanecendo ali, como se o tempo tivesse parado.
-É melhor acordar. - A voz cortou o silêncio. Uma voz que ele reconheceria mesmo depois de dez anos.
- In-ho, acorde. - repetiu, serena.
Ele levantou os olhos. O dono daquela voz estava bem ali, diante dele. Gi-hun, em pé. O rosto sem expressão.
- Eu não quero ir embora - sussurrou In-ho.
- Em algum momento, você vai. - respondeu Gi-hun, com calma. - Não é possível permanecer em um sonho para sempre.
Acordei em um sobressalto. O suor escorria pela minha testa, a respiração instável, sufocada. Era a quarta vez que sonhava com a morte de Gi-hun. Mas, diferente do que realmente aconteceu naquele dia, os sonhos me mostravam outra versão... como se fossem ecos do que eu gostaria de ter feito, ou talvez apenas fragmentos do meu inconsciente me torturando.
Sentei-me na cama, olhando para o quarto de hotel em que estava hospedado. Já havia passado uma semana desde o último jogo. A ilha, agora, era só cinzas, um lugar consumido pela destruição. Mas as lembranças ainda queimavam vivas dentro de mim. O momento em que vi Gi-hun se sacrificar pela filha da jogadora 222 não saía da minha mente, me levantando a memória do dia em que tudo aconteceu, o que realmente aconteceu.
Flashback
Tirei minha máscara, minha mente recordava as infinitas perguntas: não entendo por que você não matou aqueles malditos, Gi-hun. Você poderia ter se libertado desse inferno. Poderia ter ido ver sua filha nos Estados Unidos, cumprir a promessa que fez à jogadora 222 de cuidar da menina. Mas não... você preferiu manter sua humanidade. E eu me pergunto: do que isso serviu? Do que adiantou toda a bondade, toda a inocência? Apenas para acabar morto?
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Maldito sonho
FanfictionApós a morte de Gi-hun, In-ho é consumido pela culpa e pelas memórias. Entre sonhos, ilusões e despedidas, ele enfrenta sentimentos que nunca teve coragem de admitir.
