Nunca fui amiga do silêncio, e ainda assim, é dele que minha vida é feita.
Nossa vila desperta cedo, mas não com risos, e sim com orações. O sino da capela soa ao alvorecer, e todos, como formigas obedientes, seguem para a missa matinal. Eu também sigo — vestido simples, cabelo preso, cabeça baixa — como se minhas mãos não tremessem por dentro cada vez que caminho por aquelas portas de madeira, sabendo que se minha alma fosse desnudada, não haveria perdão suficiente a me salvar.
Não é que eu não creia em Deus. Eu creio. Mas temo mais os homens que dizem falar em nome d’Ele. Aqui, na nossa pequena e esquecida vila, não existe maior pecado do que ser diferente. E eu sou.
O olhar dela me denuncia sempre.
Isadora.
Desde que éramos meninas, há algo nela que me prende — como se cada gesto, cada palavra, tivesse sido moldado para me encantar. Mas encanto é perigoso. Especialmente quando se nasce mulher, e ainda mais quando se ama… outra mulher.
Hoje, contudo, havia algo diferente no ar. Um burburinho contido entre os mais jovens. Encontrei Beatriz, que sussurrou com ares de conspiração:
— Helena, ao cair da noite… haverá um luau. No campo, próximo ao velho carvalho. Não diga aos adultos, ou acabaremos todas mortas.
Ri, embora um riso nervoso.
— E por que me contas isso? Sabes que não costumo frequentar tais festas.
Ela inclinou-se mais, os olhos brilhando:
— Porque Isadora irá.
E assim, bastou um nome para transformar meu coração num tropel.
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Ainda naquela tarde…
Passei o restante do dia com o coração inquieto, como se o simples ato de respirar tivesse se tornado mais difícil. É assim sempre que sei que a verei — e, por Deus, quanto odeio e amo sentir isso ao mesmo tempo.
Encontrei-a perto do poço, onde as moças vão buscar água antes do entardecer. O vestido dela, de um azul pálido, balançava suavemente ao vento. Não usava o véu, e seus cabelos escuros caíam-lhe pelos ombros, soltos, como se desafiando a decência que tanto nos impõem.
— Boa tarde, Helena. — disse, com aquele tom de voz que parecia dizer muito mais do que as palavras.
Inclinei a cabeça, tentando manter a compostura.
— Boa tarde, Isadora.
Ela encheu o balde, mas não foi embora. Ficou, como se esperasse algo. Como se soubesse que eu tinha algo a dizer.
— Soube que irás ao luau esta noite. — falei, tentando parecer indiferente, mas minhas mãos não paravam de apertar a barra do vestido.
Um pequeno sorriso curvou os lábios dela.
— Talvez. Ouvi dizer que certas noites merecem ser vividas… ainda que sejam pecaminosas.
Olhei em volta. Ninguém por perto. Respirei fundo, lutando contra mim mesma.
— E… se eu também fosse?
Ela parou, erguendo os olhos para mim. Havia um brilho neles que me queimou inteira.
— Então, Helena… talvez não seria uma noite de pecado. Mas de libertação.
Antes que eu pudesse responder, ela se afastou, deixando-me com o coração batendo mais alto que todos os sinos da capela juntos.
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A casa
Minha casa é feita de paredes brancas e regras.
Tudo aqui é silencioso, salvo as orações que ecoam como se mantivessem o teto de pé. Minha mãe passa os dias com o rosário entre os dedos, e meu pai acredita que qualquer risada alta é falta de pudor. Até as refeições são precedidas por longos sermões sobre virtude, honra e pecado.
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O Segredo do Velho Carvalho
RomanceNo coração de uma vila do século XIX, onde a fé é lei e a liberdade é pecado, Helena vive em silêncio - entre orações, flores e o peso de um amor que não pode ser confessado. Isadora, criada à margem das regras, surge como um sopro de vida, mostrand...
