A flecha de Nyrah tremulou levemente, não por fraqueza, mas por uma súbita onda de hesitação que lhe subiu pelo braço e fixou-se em seu peito enquanto mirava o cervo majestoso entre as árvores. O animal pastava, inconsciente, seu pescoço nobre exposto sob a luz filtrada das folhas. Era uma cena de paz, mas dentro de Nyrah agitava-se algo estranho, um frio na barriga, uma dúvida repentina ao apertar a corda do arco. Por quê? O lampejou em sua mente, confundindo-a. Por que aquela pausa súbita, quase paralisante, que a impedia de soltar a flecha?
Um estalo seco ecoou na floresta. O cervo ergueu a cabeça, assustado, e num salto gracioso desapareceu na mata cerrada antes que Nyrah pudesse sequer entender sua própria indecisão.
— Riven! — O nome saiu como um chicote da boca de Thalia, que surgiu de trás de um carvalho, os olhos estreitos de reprovação fixos no irmão mais novo. Riven, de cabelos escuros desgrenhados como sempre, encolheu os ombros, pisando na ponta do galho que traíra sua aproximação desastrada.
— Desculpa! — Ele disse, mas o tom logo se transformou em uma queixa. — Mas isso não teria acontecido se você não demorasse uma eternidade pra atirar! Era só puxar e soltar!
Thalia ignorou a justificativa do caçula e voltou-se para a irmã mais velha. Seu rosto, sempre mais sério e contido que o de Nyrah, mostrava uma leve ruga de preocupação. — Está tudo bem? — Perguntou, a voz mais suave agora. — É o segundo cervo que escapou hoje. Algo te distraiu?
Nyrah baixou o arco, forçando um sorriso que não chegou aos olhos, ainda um pouco turvos pela confusão interior. — Tudo ótimo, Thali! Só... distraída mesmo, sabe? Pensando em outras coisas. — A mentira saiu fácil, mas soou oca em seus próprios ouvidos.
Thalia estudou-a por um segundo, seus olhos perspicazes parecendo vasculhar além da superfície, — Será... — Ela começou, a voz deliberadamente neutra. - ... Que isso tem a ver com o Selek? É hoje à noite, não é?
A menção do nome fez o coração de Nyrah dar um salto, dissipando instantaneamente o turbilhão anterior. O Selek, o festival sagrado que marcava a passagem para a vida adulta. Quando um jovem completava 16 primaveras, era conduzido diante da aldeia. O Xamã, guardião das tradições, entregava então o totem, um símbolo único talhado em madeira ou pedra que representava o novo adulto e sua jornada. Os pais, em um momento solene, eram os primeiros a tocá-lo nas mãos do filho ou filha, selando a transição da infância para as responsabilidades e direitos da maturidade.
— É. — Nyrah confirmou, e desta vez seu sorriso foi levemente mais realista, mas ainda tentando esconder o sentimento de não saber o que é, inundada de alívio por ter uma explicação mais palpável que a estranha hesitação na caça. Uma leve ansiedade logo tomou conta dela. — Finalmente! Vou ser uma adulta, como o Kai! Vai ser incrível ajudar na taverna como ele faz, ser vista como alguém... — Ela gesticulou, tentando capturar a magnitude da mudança que a aguardava.
Thalia apenas acenou, seu próprio rosto, um modelo de serenidade. - Sim, sim, a passagem para a vida adulta é significativa. — Concordou, num tom quase professoral. Então, como se estivesse apenas comentando sobre o tempo, acrescentou: - Assim como é significativo o fato de que por causa desse segundo cervo e da... distração... estamos atrasados para a hora de começar o trabalho na taverna.
O efeito foi instantâneo. O sorriso de Nyrah congelou. Os olhos de Riven arregalaram-se de puro terror. - A Mãe! - Ele gritou, saindo como um grito de alerta.
— Thalia, por que você não avisou antes?! — Nyrah exclamou, a ansiedade feliz substituída pelo pânico do esporro iminente. Sem pensar, ela empurrou a irmã do meio pelas costas. — Corre!
Riven não precisou ser convidado duas vezes. Já disparava pela trilha de volta para à aldeia. Thalia, empurrada, apenas soltou um suspiro resignado, mas seus pés aceleraram junto. Nyrah, o arco ainda na mão, lançou um último olhar frustrado para onde o cervo estivera, antes de se juntar à correria desesperada e chegarem aos trenós.
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The Lost Past
AdventureNo mundo mágico de Phannies, onde montanhas guardam segredos ancestrais e florestas escondem portais esquecidos, ela embarca em uma jornada singular. Enquanto outros adultos seguem caminhos claros, Nyrah busca o seu próprio propósito voando além do...
