O chão tremeu com uma violência devastadora, como se a terra tivesse decidido engolir tudo de uma vez.
Os lustres do Days Inn balançavam loucamente, estilhaçando lâmpadas que caíam em meio a gritos. Quadros despencavam das paredes, mesas se arrastavam sozinhas e portas batiam com força.
Sang Zhi, então com apenas dezesseis anos, estava em um quarto do quarto andar com os pais. Tinham acabado de voltar do jantar quando o primeiro estrondo sacudiu o prédio.
— É um terremoto! — gritou o pai, tentando puxar a filha em direção à porta.
Mas o tempo foi cruel. Antes que pudessem sair, parte do teto cedeu e os separou.
Um bloco de concreto caiu entre eles, lançando poeira sufocante. Sang Zhi foi arremessada contra a parede, sentindo uma dor aguda atravessar a perna.
— Pai! Mãe! — sua voz ecoou em desespero, mas não houve resposta.
A fumaça e os estalos das paredes rachando a envolveram. O quarto virou uma prisão de destroços. O ar ficou pesado, cortando-lhe os pulmões a cada respiração curta e dolorosa.
— Alguém… socorro… — a súplica saiu quase como um sussurro.
Foi então que, por entre os sons metálicos de vigas se partindo horas depois, uma voz firme e decidida atravessou o caos:
— Tem alguém aí? Segure firme, eu vou tirá-la daí!
A lanterna de um capacete abriu caminho na escuridão. Um jovem bombeiro de uniforme laranja surgiu em meio à poeira, movendo blocos de concreto com uma força que parecia sobre-humana.
Os olhos dele eram intensos, mas carregavam uma calma que parecia impossível naquele cenário.
— Eu… estou presa… — murmurou Sang Zhi, mostrando a perna presa sob os escombros.
Ele se ajoelhou, avaliou rapidamente a situação e respondeu sem titubear:
— Vai doer, mas confie em mim.
Em poucos movimentos firmes, removeu o concreto, libertando-a. Sang Zhi arfou de dor e, instintivamente, agarrou-se à manga do uniforme dele.
— Obrigada…
Sem perder tempo, ele a ergueu nos braços, protegendo-lhe a cabeça da chuva de destroços que continuava a cair.
Quando chegaram ao corredor, um novo tremor sacudiu o prédio. O teto ruiu diante deles, bloqueando o caminho com uma barreira de concreto e ferro retorcido.
— Não tem saída… — soluçou Sang Zhi, o desespero subindo como maré.
O bombeiro respirou fundo, os olhos estreitados. Apesar da poeira, o suor e um corte sangrando em seu braço, sua voz permaneceu inabalável:
— Enquanto eu estiver aqui, você não vai ficar presa em lugar nenhum.
Ele a colocou no chão, junto à parede menos instável, e começou a mover os destroços. Puxava vigas, chutava blocos, abrindo caminho a cada centímetro. Mas a estrutura do teto rangeu ameaçadoramente, como se prestes a desabar.
De repente, um estalido seco ressoou. Uma viga de ferro em brasa soltou-se do teto e despencou.
— Cuidado! — gritou Sang Zhi.
Ele se lançou sobre ela, cobrindo-a com o corpo. O impacto da viga atingiu o chão a centímetros de distância, espalhando faíscas. O calor queimou a manga do uniforme dele, mas ele não se moveu até que a poeira baixasse.
— Está tudo bem? — perguntou, a voz rouca, os olhos fixos nos dela.
— S-sim…
Ele se ergueu, ignorando a dor no braço. Com esforço sobre-humano, usou uma barra de ferro como alavanca e conseguiu abrir uma fenda estreita entre os blocos.
— Primeiro você. Não pare, não olhe para trás.
Os olhos marejados de Sang Zhi hesitaram.
— E você?
Um meio sorriso surgiu sob a poeira em seu rosto.
— Eu estarei logo atrás de você. Confie em mim.
Tremendo, ela engatinhou pela passagem. No outro lado, avistou a luz fraca da escadaria de emergência. Atrás dela, ouviu o barulho do uniforme raspando contra os destroços e a respiração pesada dele.
Então, um estalo ainda mais alto reverberou. Parte do corredor desabou sobre a abertura.
— Não! — gritou Sang Zhi, tentando voltar.
Do outro lado, a voz dele ecoou, forte apesar do perigo:
— Continue andando! Não pare!
Por um instante, ela pensou que nunca mais o veria. Mas logo uma mão empoeirada surgiu pela brecha, e segundos depois ele forçou o corpo por entre os destroços, arranhado, suado e com o uniforme rasgado.
— Eu disse que estaria logo atrás. — murmurou, arfando, antes de erguê-la novamente nos braços.
Descendo as escadas instáveis, cada passo parecia uma batalha contra o tempo, até finalmente alcançarem a saída de emergência.
Do lado de fora, o ar fresco a envolveu. Sirenes ecoavam, bombeiros gritavam ordens, e equipes médicas corriam de um lado a outro.
Ele a entregou a uma enfermeira, a voz rouca, mas firme:
— Ela está segura agora.
Sang Zhi tentou falar, perguntar seu nome, mas as lágrimas e os soluços a impediram. Quando ergueu os olhos, ele já havia desaparecido novamente no caos, correndo de volta para salvar outras vidas.
E foi assim que, no meio da destruição, uma adolescente de dezesseis anos guardou para sempre a lembrança daquele homem que a salvara.
Um nome que, naquela noite, ela ainda não conhecia: Zhang Lurang.
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Corações Em Chamas
RomanceSang Zhi teve sua vida salva por Zhang Lurang, um destemido integrante recém-chegado de uma equipe de resgate, durante um devastador terremoto em Shaanxi, na China. Dez anos depois, o acaso os reúne novamente, e antigos laços e segredos do passado e...
