Prólogo.

18 3 1
                                        

Baby, we built this house on memories
Take my picture now, shake it 'til you see it
And when your fantasies become your legacy
Promise me a place in your house of memories
Panic! at the Disco.

Caixas e mais caixas, empilhadas com uma pressa desajeitada, ocupavam o caminhão como se ele estivesse devorando minha vida aos poucos. Uma a uma, minhas coisas — livros, fotos, cartas, aquela blusa que eu nunca usei mas jurei que um dia ia servir — estavam sendo levadas embora, rumo a uma cidade que eu mal sabia pronunciar sem olhar no GPS.

— Pronto, acho que essa foi a última — disse Lily, encostando-se na lateral do caminhão com aquele ar de missão cumprida que só ela sabia ter. Ela se desequilibrou por um segundo, quase como se fosse cair, mas se recompôs no mesmo instante, fingindo naturalidade como se tropeçar fizesse parte da coreografia.

Fiquei ali parada, olhando para o caminhão como se ainda desse tempo de impedir tudo. Franzi o cenho. Aquilo simplesmente não era justo. Eu estava prestes a começar meu segundo ano do ensino médio — o mais tranquilo, dizem. Mas, em vez de estar com meus amigos, na mesma escola, com as mesmas ruas e os mesmos cafés nos finais de semana, eu estava prestes a ser jogada numa cidade nova, com pessoas novas, ruas novas… tudo novo. E não por escolha minha.

Tudo por causa do novo emprego da minha mãe. Um cargo que ela dizia odiar em silêncio, com aquele sorriso cansado nos olhos. E mesmo assim, ela aceitava tudo. As viagens, os horários absurdos, e agora… a mudança. Às vezes, eu realmente achava que ela sacrificaria a própria alma se fosse o que os chefes exigissem.

Perdida nesse turbilhão de pensamentos amargos, nem percebi que estava alheia à conversa até que um estalo de dedos me arrancou de volta.

— Jane... Jane...

— Oi? O que você disse?

— Que agora que a última caixa foi… posso te dar o que prometi — disse Lily, arqueando as sobrancelhas ruivas de forma quase ensaiada, como se fizessem parte de um número de comédia.

Eu dei uma risada baixa, sem conseguir evitar.

— Tá, sério… nunca mais faz isso. É perturbador.

Ela revirou os olhos com aquele drama calculado de quem sabia que tinha arrancado uma risada minha, e empurrou o boné verde um pouco mais pra trás, deixando alguns fios de cabelo escaparem ao vento. Típico dela: fazer de uma despedida algo menos pesado, como se o mundo não estivesse se virando de cabeça pra baixo.

— Agora que tive minha fala devolvida, vamos logo, antes que eu me arrependa — disse Lily, já atravessando a rua como se o mundo ao redor fosse cenário e ela, a protagonista invencível.

— Espero de verdade que, quando eu não estiver mais por perto, você aprenda a olhar pros dois lados — murmurei atrás dela, meio rindo, meio séria. — Antes que um carro te transforme em decoração de para-brisa.

Ela levantou uma mão no ar, como se aquilo fosse um aceno preguiçoso ou um “tanto faz”, e continuou andando com aquele andar tranquilo de quem confia demais no universo. E, por algum motivo, o universo parecia sempre corresponder

Assim que Lily empurrou a porta de entrada da casa, fui recebida pelo gato dela — aquele mesmo, de olhar julgador e pelo espalhado por todos os cantos. Ele veio direto nas minhas botas, se esfregando como se fôssemos velhos amigos, enquanto ela seguia para a sala com passos decididos.

everything really really changes. Where stories live. Discover now