Era uma manhã abafada quando estacionei o carro em frente à escola. Eu não imaginava que aquele dia seria diferente, nem que traria de volta rostos e sentimentos que andavam adormecidos no fundo da minha memória. Meu irmão tinha passado mal e eu estava lá pra resolver algumas coisas por ele, mas o destino parecia ter outros planos.
- Eu vou procurar o Lucca- disse meu irmão, já se afastando.
Assenti com a cabeça e fiquei no carro por um tempo, com o rádio ligado baixinho. Até que, de repente, o vi. Lucca.
Ele passou por mim apressado, com os olhos marejados, entrando numa das salas da escola. Havia algo errado - não era apenas cansaço. Era dor, raiva... algo mais profundo. Meu coração disparou. Sem pensar duas vezes, saí do carro e o segui.
Quando entrei na sala, ele já estava sentado no canto, com a cabeça baixa. Ao me ver, ergueu o rosto. Os olhos estavam vermelhos. Chorando, mas tentando esconder. Me aproximei, com o coração apertado.
- O que aconteceu, Lucca? - perguntei, suavemente.
Ele não respondeu. Apenas me abraçou com força, apertando minha cintura como se não quisesse soltar nunca mais.
- Calma... - sussurrei. - Eu tô aqui. Me deixa te ajudar. Fala pra mim, o que fizeram com você?
Meu irmão apareceu na porta da sala. Ele parecia hesitante, mas então disse:
- A polícia veio aqui de novo... bateram nele... por causa daquela confusão com a ex dele.
Senti meu estômago revirar. Lucca ainda me segurava forte, quase se escondendo nos meus braços.
Rodrigo, um amigo dele, apareceu na porta com o rosto preocupado.
- A mãe dele tá em Guarapari... não tem como ele voltar pra casa sozinho.
Nesse instante, meu celular tocou. Era justamente a mãe de Lucca.
- Oi... sim, posso buscá-lo. Já tô aqui na escola, vim pegar meu irmão que não tava bem.
Depois de tudo organizado, seguimos juntos. Antes, parei no Pedrinho pra comprar água pra eles. Depois, fomos direto pro hospital. Miguel(meu irmão) , estava com suspeita de dengue. Lucca, com alguns machucados visíveis, tomou uma injeção de dipirona e foi liberado. Ficamos aguardando o atendimento completo.
Enquanto esperávamos, Lucca virou pra mim com os olhos cansados.
- Posso deitar no seu colo?
- Claro... - respondi, e ele se ajeitou, repousando a cabeça. Comecei a fazer carinho no cabelo dele, devagar. Pela primeira vez em muito tempo, ele parecia respirar com menos peso.
Uma enfermeira passou por nós, observou a cena e não resistiu:
- Vocês são namorados?
Antes que eu pudesse responder, Lucca levantou um pouco a cabeça e disse com firmeza:
- Sim.
A enfermeira sorriu sem graça e se afastou. Eu apenas o observei, sem dizer nada, com o coração acelerado.
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Entre sonhos e cicatrizes
RomanceHistória se refere a um jovem casal onde mesmo em meio a tempestade ela não solta a mão dele.
