capítulo 1

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Começo de alguma coisa

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— Você acha que na faculdade as pessoas te aplaudem só por entrar numa sala? — perguntei, jogando minha cabeça contra o encosto do sofá dos Matthews, braços cruzados, encarando o teto como se ele fosse responder.

— Talvez, se você entrar dançando. Ou cantar um número do Hamilton! — disse Riley, animada demais para o horário e para o momento da nossa vida. — Eu posso abrir a porta e você entra assim, com uma música de fundo tipo “I am not throwin' away my shot…”

Revirei os olhos.

— Você é meu shot, Riley. De tequila.

Ela ignorou a provocação e continuou no próprio mundo colorido.

— A faculdade vai ser incrível! Eu posso sentir! Sabe aquela sensação de que a vida vai te dar uma nova chance de ser você mesma? Mas numa versão 2.0. Mais madura. Com lattes. E professores que te chamam de “senhorita”.

— Professores me chamam de "Hart", tipo nos arquivos da delegacia.

— É um recomeço, Maya. Um novo capítulo.

— Espero que não seja escrito por você — respondi, mas não consegui evitar um pequeno sorriso.

O dia estava abafado, o tipo de calor que fazia a gente desejar paredes mais finas só pra pegar uma brisa. Eu estava sentada onde sempre estive, naquele mesmo sofá da sala da Riley, onde tantas coisas aconteceram — algumas mais idiotas do que outras. E agora, de repente, a gente tava prestes a ir pra faculdade. Como se fosse normal crescer assim.

Mas claro que com Riley nada é normal. Ela falava sobre a faculdade como se fosse Hogwarts, ou um musical da Broadway com lanches grátis. Eu só queria conseguir dormir nas primeiras noites e não socar ninguém até a terceira semana.

Ou… não me desmontar quando visse ele.

Josh.

Meu cérebro insistia em colocar o nome dele ali, naquele espaço entre um silêncio e outro, onde nenhum som podia interromper. Eu não falava sobre ele havia meses. Nem com Riley. Nem comigo mesma, pra ser sincera. Mas agora, tão perto de vê-lo… era como se o acordo tivesse sido feito ontem.

"A longo prazo."

Três palavras que me deixaram suspensa no tempo. Me fizeram crescer, esperar, imaginar. Ele ainda pensava nisso? Ainda lembrava? Será que em algum dia qualquer, no meio da rotina dele, a imagem de mim passava pela cabeça dele? Ou será que fui só uma ideia bonita num momento certo?

Idiota.

Não era isso que eu fazia. Não era isso que Maya Hart fazia. Mas era o que estava acontecendo. E eu não fazia ideia do que sentir quando visse o rosto dele de novo.

— Chega, Maya. — murmurei pra mim mesma, quase sem som.

Riley olhou pra mim.

— Disse alguma coisa?

— Que a faculdade vai ser um desfile de arrependimentos. Mal posso esperar.

Ela sorriu e pulou no sofá ao meu lado, me empurrando um pouco com o ombro.

— Você vai amar, Maya. Mesmo que você não queira.

Domingo.

Cory e Topanga levaram a gente pro campus. O carro estava cheio de caixas, sacolas, conversas paralelas e conselhos que entravam por um ouvido e saíam pelo mesmo. Riley agradecia a cada minuto. Eu fingia que não estava tão nervosa quanto parecia.

O campus era maior do que eu imaginava. Árvores demais. Estudantes demais. Liberdade demais, talvez.

Nosso dormitório ficava no segundo andar de um prédio que tinha cheiro de tinta fresca e ansiedade. Entramos e dividimos o espaço. Cada uma com seu lado.

O lado da Riley parecia uma cena de musical adolescente. Pôsteres de grupos de teatro, poemas colados na parede com fita dourada, cantoras sorrindo em poses dramáticas, adesivos de flores, livros organizados por cor. A colcha da cama parecia saída de um piquenique hippie.

O meu lado? Preto e branco. Literalmente. Pôsteres de cantores dos anos 80 e 90 — alguns sorrindo, outros parecendo querer te bater. Adesivos de borboletas, rabiscos meus colados com fita comum, livros empilhados e desenhos nas paredes como se fosse minha galeria particular. A colcha era cinza. Como eu.

Arrumamos tudo juntas. Rimos quando ela tropeçou nas próprias botas, brigamos quando ela tentou colocar uma luzinha colorida do meu lado da parede, e comemos biscoitos de uma caixa que a Topanga deixou junto com um bilhete.
"Sejam incríveis."
Riley quase chorou. Eu quase comi o bilhete de papel arroz sem querer.

Já era fim de tarde quando ela deitou na cama, virou pro meu lado e soltou:

— Amanhã você vai ver o Josh.

O silêncio foi imediato. Eu olhei pra parede.

— Não quero pensar nisso.

Ela ficou quieta por um segundo, o que já era um milagre. Então respondeu baixinho:

— Você não precisa pensar. Só… sentir.

— Tô bem, Riles. Sério.

Mas eu não estava. Não totalmente.

Porque amanhã eu ia ver ele.

E depois de tanto tempo… nem eu sabia mais quem eu era, quando ele olhava pra mim.

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A Longo Prazo Where stories live. Discover now