Estamos há um mês nesse limbo.
Ela na casa dela, eu na minha.
E a única companhia que me acalenta é aquela que nunca me abandonou: a bebida.
Os repórteres são como aves de rapina, espalhando-se em busca da melhor caça, ou devo dizer, das melhores fofocas. Eles já começaram a farejar carniça. Especulam, supõem, enfeitam situações com legendas sensacionalistas.
Nós? Nem confirmamos, nem negamos.
Para quem sabe ler nas entrelinhas, e, sejamos honestos, quem não sabe hoje em dia? já ficou claro: o castelo de cartas está desabando. Em câmera lenta. E com trilha sonora de sarcasmo.
Um gole do líquido âmbar.
O fogo se espalha em minha garganta.
Ah, que delícia…
Uma distração para a fogueira que arde na minha pele como brasa viva.
(Um riso seco, quase um grunhido, escapou dos meus lábios.)
Ironia, não?
Queimar por dentro só para não sentir o incêndio do lado de fora.
A verdade?
A névoa já é tão espessa que nem sei mais o que começou tudo isso.
Ciúmes?
Uma pegadinha alcoólica do meu cérebro?
A combinação explosiva de ambos?
Talvez aquela entrevista antes do evento… ou, quem sabe, um alinhamento cósmico de “felizes” acasos que nos empurrou direto para o abismo.
Charlotte e eu… quase cinco anos de montanha-russa sem freio.
E há um ano, casadas. Isso mesmo: casadas. Deveríamos estar em ritmo de lua de mel. Mas a indústria da moda não perdoa: quanto mais o tempo passa, menos propostas surgem.
Conosco, porém, o contrário aconteceu.
Quanto mais o tempo passava, mais convites surgiam.
O título de “casal Miss Grand Tailândia” virou passaporte para campanhas, capas de revista, contratos.
Eu, gerente executiva. Charlotte, a maior acionista.
Tomamos todas as decisões juntas, não por ela ser a maior acionista, mas porque ela é a minha dupla. A minha metade.
Começamos do zero. Abrimos mão de tanta coisa…
Chegamos até aqui para agora simplesmente deixar tudo para trás?
A primeira vez que a vi foi num concurso de beleza.
Meu coração... essa criatura sempre disposta ao drama, errou a batida quando ela sorriu.
E que sorriso…
Não era só encantador. Era um eclipse. Uma junção perfeita do ireal com o real.
Tão perfeito que me pergunto: de que realidade cósmica ela saiu?
Nossos olhos se cruzaram e, antes que eu pudesse piscar, já estávamos entrelaçadas.
Fui fisgada.
Nem o anzol mais afiado de Úrsula faria melhor.
Charlotte, essa criatura de luz, é tudo o que eu não sou.
Meiga, brincalhona, tagarela…
Enquanto eu?
A reclusa silenciosa. A que observa demais e fala de menos.
Ela parecia o pedaço do quebra-cabeça que eu nem sabia que estava faltando.
Mas o que era conto de fadas agora está prestes a virar fábula trágica.
A exposição pesou?
A pressão para assumir algo que só dizia respeito a nós?
Ou foi o excesso de convivência?
Ou, pior: o trabalho que aceitei, e que não incluía “Englot” no pacote?
Meu ciúme… o dela… falaram mais alto?
Talvez tudo. Talvez nada.
Talvez a gente só tenha esquecido como voltar. Como conversar. Como rebobinar e recomeçar.
Quem diria…
A vida imita a arte. Especialmente as tragédias gregas.
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A que horas eu dormi?
Ah, essa é para os deuses.
Lembro do sol nascendo… e da segunda garrafa de uísque pela metade. Mas autocompaixão não paga boleto. Hora de levantar e enfrentar o circo.
O primeiro compromisso? “Englot”, claro.
Vamos fotografar para divulgar um novo projeto e, desta vez, a campanha começa antes mesmo da primeira cena filmada.
Que maravilha!
E meu “outro” trabalho? Quase no fim.
O que significa jornadas duplas e uma avalanche de compromissos.
Mas, tudo bem... Eu aguento. Juro.
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O banho é rápido. Só o suficiente para tentar sacudir a ressaca da alma.
A roupa? Armadura improvisada:
calça jeans, blusa larga, óculos escuros, boné.
Uma camuflagem contra câmeras, flashes, julgamentos.
Contra mim mesma, e nesse caso, nem sempre funciona.
Imagino que Charlotte esteja passando pelo mesmo ritual.
Ou pior…
Me preocupo com ela.
Já temos problemas o bastante para lidar sem precisar enfrentar suposições baseadas em cortes mal-feitos de vídeo e manchetes maldosas.
Sempre tentei separar o produto da pessoa, mas é difícil. Para nós, para qualquer casal sob holofotes.
Veja Faye, por exemplo. Passou pelo inferno por causa daquele “shipp” infeliz com Yoko.
Ela, mais velha e calejada.
Yoko, quase um filhote, perdida no labirinto da fama.
(Um sorriso sarcástico se forma. Quase perverso.)
Os mais novos sempre precisam de proteção, não é? Talvez seja por isso que a diferença de idade causa tanto incômodo.
Faye nunca comentou se era trabalho ou pessoal.
Mas eu as vi juntas em um evento. Olhei nos olhos delas e me enxerguei com Charlotte, a diferença é que elas transbordavam.
A contenção que me segura não era forte o suficiente para elas.
Faye é uma boa amiga e merecia viver aquilo em sua plenitude.
A Yoko fez bem à minha amiga, foi o puxão da vida que talvez lhe faltava.
Contudo, existia o risco. E elas pareciam dispostas a pagar.
E pagaram.
Hoje olho minha amiga e ela diz que está tudo bem agora, depois de ter sido exposta de maneira cruel nas mídias. Mas é notório: ainda dói. Ainda sangra.
Yoko?
Nos cruzamos em alguns eventos e a menina perdeu um pouco do seu brilho. Ela tinha uma felicidade estampada no rosto, principalmente ao lado de Faye.
Mas agora… parece que o sorriso não chega de fato aos olhos.
Sei que elas já conversaram.
Mas mágoas, quando não resolvidas, viram barreiras.
E barreiras, com o tempo, se tornam muralhas.
Sinto por elas.
Quantas vezes tirei o celular da mão de Charlotte para poupá-la de mais uma onda de esgoto digital…
Ela absorve tudo.
Especialmente a sujeira.
As pessoas deveriam pensar duas vezes antes de vomitar suas palavras sobre os outros.
Já somos cobradas demais para ter que lidar com expectativas e frustrações alheias.
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Hoje decidi ir sozinha, silêncio no caminho...
Meus assessores já estarão lá, cumprindo o protocolo.
Respiro fundo.
O ar parece mais denso.
Ou sou eu que estou mais leve de certezas.
Por enquanto, só o que ecoa é a ausência dela.
E o gosto amargo de um brinde solitário.
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E, em algum lugar, bem distante, algo começa a se mover.
Como um presságio.
Uma pequena sombra que um dia vai exigir mais do que respostas.
Vai exigir presença.
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Entre o Orgulho e a Sorte
FanfictionPrólogo - Entre o Orgulho, a Dor e a Sorte Elas foram o casal que todos admiravam. Engfa e Charlotte - um nome que virou manchete, uma paixão que parecia à prova de quedas. Quase cinco anos juntas. Um casamento recente, a fama consolidada. As duas e...
