A chegada e a comida miserável.

98 7 22
                                        

Choi Su-bong, mais conhecido como Thanos, nunca imaginou vestir um uniforme rosa.

Passava os dias tentando recuperar-se da falência causada por um investimento fracassado em criptomoedas e afundado em dívidas e vícios com drogas. A sua profissão como rapper caiu numa questão de segundos, e agora ele não sabe o que fazer da vida.

Isso foi antes do cartão. Era a sua oportunidade. Uma chance de ganhar dinheiro, e voltar ao que era. Sem drogas, sem depressão, sem dívidas. Só ele.

Por mais que esteja feliz, ele soube desde o momento que olhou aquela roupa horrenda, sentiria-se sufocado. Era quente como o inferno, e não dava jeito para respirar, que é meio que assencial. Porque não se podia ver as caras? Provavelmente têm medo de toda a gente apaixonar-se por mim, pensou sorrindo de canto.

Thanos, identificado como guarda 230, caminhava pelo corredor que levava ao dormitório. O uniforme rosa pesava nos ombros como uma armadura invisível, quente e incômodo. Ele suava — nas têmporas, na nuca — e o tecido apertado provocava uma sensação de claustrofobia que deixava o peito preso.

Seu quarto era simples, e igual aos outros. Dentro, uma cama estreita, uma pia e uma pequena janela que não deixava passar mais do que um vislumbre do céu. Tudo era limpo demais, frio demais. Estava quase feliz por não haver telefone, nem fone de ouvido — nada para lembrar que um dia foi rapper, um dia teve fãs, amigos, shows.

Sentou-se na cama, tirou a máscara por um instante e respirou fundo. Lembrou-se da falência, do investimento em criptomoedas que desmoronou tudo: mais de ₩ 1,19 bilhões de dívida,  — e os dias em que cheirava pó só para aguentar. Ele olhou para a cruz pendurada — a mesma que serve para guardar a sua felicidade. Ainda não havia tocado nas pílulas desde que chegou, e por mais que quisesse tomar uma e esquecer o que está à sua volta, sabia que era perigoso. Ainda não sabia como seria o seu trabalho lá, e não parecia algo muito simpático.

A porta rangeu: um gerente mascarado entrou, entregou instruções: sair em 15 minutos. Sem demora, em fila única. Sem explicações — o silêncio era parte do protocolo.
Thanos suspirou, ajeitou o uniforme e levantou-se. Antes de seguir, passou a mão na cama — como quem procura um pouco de ânimo ou, mais provavelmente, paciência para aturar chatos de voz monótona.

Saiu do quarto e virou preguiçosamente à direita, apenas porque todos os outros guardas faziam o mesmo. Foram guiados por várias escadas e corredores, mas ele não prestou muita atenção. Não conseguiria descrever o caminho nem que o ameaçassem com uma arma. Naquele momento, só conseguia pensar em comida — ou melhor, na falta dela. O estômago começava a roncar, e ele ainda nutria a esperança estúpida de que, em algum momento, seriam agraciados com um banquete digno de hotel cinco estrelas. Afinal, estavam a trabalhar, não?

Quando finalmente começou a prestar atenção, ouviu um guarda à frente a dizer qualquer coisa completamente irrelevante. O que realmente chamou sua atenção foi o símbolo na máscara do homem: um quadrado. Levou a mão à própria máscara, confirmando o que já sabia — círculo.  Olhou ao redor verificou que todos à sua volta tinham também círculos.
— Deve ser porque somos novatos — murmurou para si, com um meio sorriso.
Era um palpite, mas fazia sentido. Ou talvez fosse para manter os círculos longe dos quadrados, não fosse alguém fazer perguntas idiotas como ele.

Seguiram por mais corredores, subiram mais escadas, e ele resmungava baixinho a cada degrau. Supostamente, estavam a ser orientados para conhecer as instalações, mas Thanos achava tudo um exagero. Mesmo que prestasse atenção, sem dúvida acabaria perdido no labirinto que era aquele sítio.
Quando finalmente chegaram aos dormitórios principais dos guardas, uma fila de homens com triângulos nas máscaras saía em marcha. Deviam estar de serviço. Thanos olhou-os com desdém discreto e, se pudesse, teria comentado:
— Boa sorte aí a subirem e a descerem escadas como idiotas. Eu vou é deitar-me um bocado.
Mas conteve-se. Ainda não conhecia bem as regras — e mesmo com máscara, não queria arranjar problemas logo no primeiro dia. No máximo 24 horas a comportar-se.

Ao entrar pela sua porta, tirou a máscara desconfortável da cara, lavando o rosto na pia. Olhava o espelho sujo e embaciado quando trouxeram o que tanto esperava. O jantar. Se podermos chamar de refeição. O prato tinha arroz colado, uns legumes tristes e um pedaço de carne que parecia ter sido grelhado por um cigarro aceso.

Ele pegou a bandeja e sentou-se na cama, tentando ignorar o cheiro morno que saía da carne — se é que se podia chamar aquilo de carne. Espetou o arroz com o garfo. Era mais seco do que o deserto. Levou uma garfada à boca. Imediatamente se arrependeu.

— Fantástico — resmungou. — Têm dinheiro para fazer um megajogo secreto para pobres desesperados e servem comida de prisão dos anos 60.

Thanos continuou a comer, ou pelo menos a tentar. A carne era elástica. Os legumes sabiam a nada. E a sobremesa — não havia. Que surpresa.

Thanos passou a mão pelo rosto depois da última garfada frustrada e empurrou a bandeja para o canto da cama com um suspiro exausto. Ficou alguns segundos a olhar para o teto, os olhos semicerrados.
Não tinha sono, nem fome resolvida, nem paz.

Voltou a pensar nos triângulos. Lembrava-se bem — quando chegaram aos dormitórios, uma leva inteira deles estava a sair. Marchavam em grupo, diretos, sem hesitação. Tão diferentes dos círculos, que andavam por ali como novatos em excursão escolar.
Mas agora que pensava melhor... os triângulos também tinham pessoas novas. Tinham alguns com aquele andar forçado de quem ainda está a habituar-se ao uniforme e às ordens.
— Então também tiveram guia, só... noutro horário — pensou em voz alta. — Interessante.
Afastou a bandeja com o pé, deitou-se de lado e ficou a encarar o armário baixo ao lado da porta. O silêncio era desconfortável, mas nem tanto quanto as perguntas que lhe ferviam na cabeça.
— Será que eles estão a fazer outras tarefas? Noutros pisos, noutros setores? — murmurava, como se alguém do outro lado da parede pudesse responder.
Talvez os triângulos fossem os que lidavam diretamente com os jogadores. Ou os que executavam as ordens mais pesadas. Os círculos, por sua vez, pareciam inúteis — foram guiados pelos corredores, aprenderam a ficar em pé com postura e a ficar calados. Só isso.
— E os quadrados? — completou, franzindo a testa. — Esses nem se mexem. Só falam. Devem ser os chefes, os "gestores" do sofrimento alheio.
Thanos bufou com desprezo. O sistema todo parecia demasiado estruturado para algo que era, no fundo, ilegal até à medula. Um jogo secreto, com hierarquia, máscaras, regras e... comida miserável.

O cartão que recebeu não dizia quase nada. Apenas uma proposta vaga: “Seja guarda de um jogo entre 456 participantes. O vencedor leva uma fortuna. Os guardas também recebem.” Soava mais a promoção de reality show do que a um contrato real. Até parecia divertido, no início.

Afastou os pensamentos e virou-se na cama, procurando uma posição menos miserável — se é que isso era possível naquela tábua disfarçada de colchão.
A confiança do início já não estava lá. Mas agora, não havia mais volta. Só restava esperar para descobrir o que realmente se passava naquela ilha afastada.
O cansaço venceu, e acabou por adormecer.

Na manhã seguinte, as suas costas gritariam por socorro, como se tivesse envelhecido quarenta anos durante a noite.
Que merda de trabalho.

1255 palavras!!
Olá peoplezitas! Sou a Sofia, mas podem-me tratar como quiserem sinceramente, eu não quero saber.
Eu tive esta ideia derrepente durante a noite e decidi escrevê-la. Porque não?
Eu adoro este shipp e não perderia a oportunidade.
É a primeira vez que escrevo, então pode não estar muito bom e mal escrito. Se tiverem ideias ou correções digam à vontade.
Eu sou portuguesa, então se fores brasileiro, peço desculpa que algumas frases podem estar confusas.
É isso!!
Adeus people'ss.
Sabiam que a ursa maior pode também ser conhecida como o grande carro ou o Arado em diferentes culturas??
Se não sabiam ficam a saber.
🌑🌒🌓🌔🌕🌖🌗🌘🌑











Entre tiros e toques.Donde viven las historias. Descúbrelo ahora