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Capítulo 1 — A Primeira Testemunha

A noite era pesada. A lua parecia ter sumido do céu, engolida por nuvens densas. O vento cantava pelas frestas da antiga casa Loukamaa, agora tão silenciosa quanto esquecida.

Fernanda Loukamaa gritava de dor.

Estava sozinha. Nenhuma parteira, nenhum médico, nenhum parente. Apenas o colar em seu pescoço — antigo, estranho, quente demais contra a pele.

E a voz.

— Ah, meu Deus… já tá vindo! — Fernanda arfava, tentando controlar a respiração.

Vai com calma, garota. Respira. Empurra. Isso. — disse a voz rouca, debochada, vinda do nada. Ou melhor, do colar.

Só Fernanda podia ouvi-la. Só ela podia vê-la.

Sina Deinert.
Filha de Lilith e do anjo caído.
Demônio do submundo.
Prisioneira de uma corrente maldita.

— Não acredito que minha existência milenar chegou a isso. Parteira de Loukamaa… — bufou Sina, de braços cruzados, flutuando em silêncio ao lado da cama.

Minutos depois, o choro de Joalin rasgou o silêncio da madrugada.

Fernanda a acolheu nos braços, ainda ofegante, os olhos marejados de alívio e amor.

— Meu Deus… é o bebê mais lindo que eu já vi na vida…

Sina se aproximou. Ela, que vira séculos passarem diante de seus olhos, príncipes nascerem e impérios ruírem… ficou em silêncio por um momento.

— …é — murmurou. — É mesmo.

Fernanda sorriu.

— Eu acho que vou ter que cuidar muito bem dela…

— E eu também, pelo visto — Sina completou, com um olhar cansado. — Não que eu tenha escolha. Mas… vai ser diferente dessa vez. Sinto isso.

As futuras gerações da linhagem Loukamaa não foram como Luiz, o primeiro e mais podre dos reis. Aos poucos, o peso do nome foi se desfazendo. Viraram gente comum. Trabalhadores. Pessoas normais.

E foi o bisavô de Joalin, um homem de alma tranquila e curiosa, quem mudou tudo. Ele foi o primeiro a tratar Sina como alguém. Falava com ela nas madrugadas em que o colar brilhava. Fazia perguntas. Trazia chá. Às vezes só queria conversar.

— Você não precisa ser só uma maldição — ele disse, uma vez.

A amizade deles passou adiante. O filho dele, depois a neta, depois Fernanda… todos ensinaram à próxima geração que Sina não era um fardo, mas uma história viva. Um espírito antigo que só queria ser ouvida. E, talvez, amada.

Joalin cresceu com a voz de Sina como companhia constante.

Quando era bebê, chorava para o colar e se acalmava sozinha minutos depois. Quando começou a andar, dizia que estava brincando com a “moça da sombra”. E quando fazia birra, xingava a tal moça — com palavrões que deixariam qualquer um de cabelo em pé.

— Essa criança é o cão! — Sina dizia, rolando os olhos. — Eu já dominei tempestades e batalhas sangrentas, mas essa pestinha de cabelo embaraçado e riso fácil vai acabar comigo.

Mas mesmo quando falava isso, ficava por perto. Observava. Protegia.

Joalin achava que era só uma amiga imaginária. A sombra boa. A “amiga” engraçada.

Mal sabia ela que carregava no pescoço um dos seres mais poderosos que o mundo já tentou esquecer.

E Sina? Bom… Sina descobria, aos poucos, que estava se apegando. E isso a assustava mais do que qualquer feitiço.

Meu demônio pessoalWhere stories live. Discover now