Capítulo 1- Casa Nova

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Meu nome é Sabina Hidalgo Pano. Dezessete anos. Filha mais nova. Viciada em café gelado, playlists tristes e finais felizes que não existem. Eu danço desde os sete, jogo vôlei desde os onze e finjo ter tudo sob controle desde sempre.

Essa semana, minha vida virou de cabeça pra baixo - literalmente. Me mudei com minha família pra um bairro novo, uma casa nova, uma rotina nova... e uma vista nova que tem me deixado com uma sensação estranha desde o primeiro dia.

A casa em si é bonitinha. É bege com portão marrom, simples, mas bem iluminada. Meu quarto é o que mais gosto - não porque é grande (não é), mas porque tem duas varandas. Uma voltada pra rua, outra pro quintal. Essa última é meu cantinho. Toda vez que piso ali, sinto que o mundo desacelera. É onde escuto música, vejo o céu mudar de cor no fim da tarde e penso... demais.

A varanda de trás dá direto pro quintal. Uma área verde, pequena, mas agradável. O chão é de cimento, tem algumas plantas que minha mãe trouxe do antigo apartamento, e uma porta de vidro que liga tudo à sala. Dali, dá pra ver a TV, o sofá e até um pedaço da cozinha se a porta estiver aberta.

A outra varanda, voltada pra rua, é mais pra enfeite. Nunca acontece muita coisa lá fora. O máximo são as vizinhas passeando com cachorro ou crianças correndo atrás de bola.

O bairro é silencioso. Calmo até demais. À noite, você consegue ouvir o som dos grilos e o vento mexendo as folhas. Tem quem ache isso relaxante. Eu? Acho meio assustador.

A gente se mudou porque meu pai foi transferido no trabalho. Minha mãe tentou animar a situação dizendo que seria "um novo começo", mas no fundo sei que ela também ficou meio perdida. A casa anterior tinha história, tinha cheiro de infância, barulho de passos conhecidos. Essa aqui ainda parece emprestada.

Na primeira noite, não consegui dormir. Não por causa da cama nova ou dos móveis fora do lugar, mas por um frio esquisito na barriga. Eu olhei pra varanda do fundo e vi, logo adiante, outra varanda - na casa ao lado. Fica quase na mesma altura que a minha, como se espelhassem os dois quartos. A casa ao lado tem uma cor parecida com a nossa, só que mais puxada pro laranja claro. O portão é preto. E, até agora, eu não vi ninguém entrar ou sair de lá.

Curioso, né? Uma casa com luzes que acendem e apagam, mas sem vozes, sem risadas, sem gente aparente.

Acordei no segundo dia com o barulho da porta da sala batendo. Era minha mãe limpando a área externa. Ela abriu a porta de vidro e deixou o ar entrar. O sol invadiu tudo de uma vez - iluminou a sala, o chão, meu rosto ainda meio sonolento.

Tomei café sentada no sofá, com as pernas encolhidas e o olhar perdido. Por reflexo, olhei pra fora. Vi a varanda da casa ao lado de novo. Estava vazia. Ou parecia estar.

Com o passar dos dias, essa sensação de estar sendo observada foi ficando mais constante. Tipo quando você tem certeza de que alguém está atrás de você, mas, quando vira, não tem nada. E o pior: você sente vergonha por sentir medo. Fica parecendo drama.

Contei pra minha mãe uma vez. Ela riu. Disse que era coisa de adaptação. "Seu cérebro tá estranhando o silêncio", ela falou. Talvez. Mas meu cérebro nunca errou tanto assim antes.

Na quarta-feira, aconteceu algo que me arrepiou de verdade.

Eu estava na sala sozinha, escutando música nos fones, quando parei pra beber água. A porta de vidro estava aberta, e senti uma brisa gelada bater. Fui fechar - e foi aí que percebi uma sombra se mexer na varanda da casa ao lado.

Foi rápido. Muito rápido. Como se alguém tivesse se abaixado ou se escondido no canto da varanda.

Meu coração bateu mais forte. Eu congelei. Esperei por um segundo, dois... nada.

The House Next Door (A casa ao Lado)Stories to obsess over. Discover now