capítulo 1

2.6K 148 553
                                        

Capítulo 1 – "Um garoto ridiculamente interessante"
___________________________________________

Sae Itoshi ~

Era sempre a mesma coisa.

As pessoas falavam demais, se moviam demais, pensavam de menos. E cada passo que eu dava no Japão tornava isso mais óbvio.

Naquele dia, aceitei o convite – ou melhor, a convocação – de observar o novo projeto chamado Blue Lock. Algo sobre criar o atacante definitivo, moldar monstros para servirem à seleção japonesa. Ego Jinpachi tinha uma proposta estúpida e, ao mesmo tempo, ridiculamente interessante. E foi por isso que eu estava ali.

Acima de tudo, eu queria ver com meus próprios olhos.

Observar. Catalogar. Desmontar mentalmente cada um daqueles garotos como peças em um tabuleiro. Porque se havia uma coisa que eu fazia bem, era identificar inutilidade. E ali embaixo, naquela estrutura envidraçada que tremia com os gritos e o barulho dos tênis no chão emborrachado, estava cheio disso: inutilidade.

Corpos que se moviam rápido demais, sem pensar no porquê. Passos errados, impulsos falhos. O jogo que começou lá embaixo – o primeiro teste de eliminação –, para mim, foi quase uma comédia.

Exceto por um.

Um loiro.

Ele se movia como se o chão fosse um campo de guerra. Não havia tática, nem ordem. Só instinto. Brutalidade. Os olhos dele – magenta, vibrantes – procuravam alvos, não jogadas. Era violento, selvagem, sujo. E ainda assim, eficiente.

Eu não sabia o nome dele. Ainda.

Mas bastaram cinco minutos de observação pra entender que aquele número 13 não era como os outros.

Ele chutava como quem atirava pra matar.

E matava.

Os outros jogadores começaram a recuar. A respirar mais pesado. O suor pingava em seus rostos como se estivessem tentando escapar de uma besta solta. E, de certa forma, era exatamente isso que ele era. Um animal. Um problema. Um desequilíbrio dentro de uma equação que mal começara a ser escrita.

Ele acertou o primeiro chute com tanta força que o som reverberou até onde eu estava. O impacto no corpo do garoto ecoou como um tambor de guerra.

E aí, ele riu.

Não foi uma risada normal. Não foi alívio, nem provocação.

Foi prazer.

A maioria teria se assustado. Achado repulsivo. Mas eu não.

Eu continuei observando.

Com atenção redobrada.

A estrutura onde eu estava era completamente fechada em vidro, elevada, separada por dois andares. Era o ponto cego de quem jogava. Mas ele... não parecia ligar pra pontos cegos. De alguma forma, ele me sentiu ali. Ainda que não soubesse quem eu era, ou o que eu estava fazendo.

Os olhos dele varreram o espaço algumas vezes.

E num instante – um instante quase imperceptível – ele travou o olhar em minha direção. Como se, mesmo sem ver direito, algo nele soubesse.

"Tem alguém ali em cima."

O jeito como ele vacilou por um segundo confirmou tudo. Foi a primeira e única hesitação que vi naquele garoto desde o início do jogo.

E por causa disso, ele levou um chute.

Foi atingido.

Recuperou rápido, claro. Mas o dano estava feito. Não no corpo, mas no orgulho. Porque agora, ele sabia que estava sendo observado.

Nos olhos de Itoshi Sae - (RyuSae)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora