Capítulo 1: Quando o Ódio Tem Forma

4 1 0
                                        


A névoa pairava densa sobre a floresta Nyphalor, envolvendo as árvores ancestrais em um véu de mistério. Cada gota de orvalho, suspensa no ar, parecia carregar os segredos de eras passadas, e o farfalhar das folhas contava histórias silenciosas. Apesar da melodia natural que, em outras noites, acalmava meu espírito, naquela madrugada algo perturbava a ordem da floresta. Uma inquietação sutil, mas insistente, percorria o ar, e minha intuição – que raramente falha – gritava em silêncio que o perigo estava próximo.

Me movia com agilidade entre os galhos, minha cauda equilibrando-me com a destreza que só anos — e uma boa dose de talento nato — poderiam proporcionar.

Meus olhos dourados vasculhavam cada canto da penumbra, captando qualquer movimento suspeito. E então, lá estava: o uivo. Longo, distante, familiar... e, para minha irritação, ainda eficaz em arrepiar minha espinha.

 — Ótimo, como se a floresta encharcada e a neblina espessa não bastassem...

 murmurei para mim mesma resmungando:

 – Agora tenho que lidar com lobos.

Mas não era medo que me fazia acelerar o passo. Era a certeza de que, seja lá o que estivesse à espreita, estava prestes a descobrir que mexer comigo não foi a melhor das escolhas.

Foi então que senti, primeiro o cheiro — uma essência terrosa e selvagem, cortada pelo inconfundível aroma metálico de sangue. Meu pelo se eriçou instantaneamente. Lobisomens. Droga. Justo o que faltava para tornar a noite perfeita. Meu instinto gritava para recuar, mas meu orgulho? Ah, esse era teimoso demais para isso. Não era do meu feitio fugir de um confronto — ainda mais com quem ousasse invadir o meu território.

E, como se respondendo ao meu desafio silencioso, ele surgiu das sombras. Liang apareceu, imponente e enigmático. Com a pele bronzeada, cabelos vermelhos despenteados pelo vento e um corpo esculpido pela batalha, ele emanava uma aura de perigo e arrogância contida. Seus olhos, verdes incandescentes como carvões em brasa, encontraram os meus num olhar carregado de desafios silenciosos; seus piercings prata se destacam em meio a perfeição simétrica que é o seu corpo. E que corpo...seus 2,10m de altura transbordam poder. Até a forma como ele caminhava exalava perigo e aquele tipo irritante de confiança que me dava vontade de revirar os olhos. Ele parou diante de mim, cruzando os braços com um sorriso torto — do tipo que prometia encrenca.

— Uma raposa sozinha na floresta à noite? 

 Sua voz sedutora soou como um convite para briga e, sinceramente, eu estava tentada a aceitar. 

— Isso não parece muito esperto.

Arqueei uma sobrancelha, a cauda tremulando atrás de mim como uma serpente pronta para atacar.

— E um vira-lata perdido no meu território? 

retruquei, com meu melhor sorriso afiado. 

— Isso não parece muito inteligente também.

Se ele se incomodou? Nem um pouco. O maldito sorriso só se alargou.

— Sempre com a língua afiada, Akari, gostaria de saber como reagirá quando ela estiver dentro da minha boca...

murmurou ele, dando um passo à frente. Meu corpo inteiro se enrijeceu, meu rosto ficou corado como um tomate enquanto fico totalmente pronta para qualquer movimento suspeito que ele ousasse fazer. 

— Sabe, poderia ter vindo em paz... mas onde estaria a graça nisso, não é?

Revirei os olhos.

— Se eu ganhasse uma moeda toda vez que um inimigo diz isso antes de tentar me atacar, já teria comprado essa floresta inteira 

retruquei, afiando meu tom.

Minhas garras se alongaram instintivamente, e a névoa ao nosso redor pareceu se tornar mais densa, como se a própria Nyphalor estivesse prendendo a respiração.

Liang riu, aquele som rouco que me irritava mais do que deveria.

— Eu poderia dizer o mesmo sobre você 

respondeu, os olhos faiscando. 

— Mas hoje não estou aqui para brigar... a menos que me provoque.

— Ah, ótimo. — Cruzei os braços.

— Então estamos em uma competição de quem consegue ser mais insuportável? Porque, aviso logo, eu sou imbatível nisso.

Ele abriu a boca para responder, mas parou. Seu olhar desviou para algo atrás de mim. E isso, claro, foi o suficiente para disparar todos os meus alarmes internos. Girei nos calcanhares, a cauda se movimentando em uníssono. A névoa se partiu, revelando silhuetas cinco... dez... não, quinze deles. Outros lobisomens. Cercando. Todos exibindo um de seus olhos completamente negros.

— Sério? 

Olhei de volta para Liang.

 — Planejou uma emboscada? Que criativo. Dá pra ver que andou pensando fora da caixa esta noite.

— Não fui eu — disse ele, a seriedade substituindo o sarcasmo em sua voz. — Eles não são meus.

Ah, claro. Porque uma emboscada planejada já era ruim... uma inesperada? Isso era muito pior.

Liang riu, um som rouco e divertido que fez minhas orelhas se moverem de leve. 

— E eu achando que kitsunes tinham mais modos. Acho que os boatos estavam errados.

— Surpresa — retruquei com um sorriso enviesado. — Nunca confie em boatos, eles tendem a ser decepcionantes... assim como você.

O ar entre nós se carregou de tensão, quase palpável. O ódio entre nossas raças era antigo, gravado em nossas histórias e — para ser honesta — pulsando no meu sangue naquele exato momento. Mas havia algo mais ali, algo que fervilhava sob a superfície e que eu preferia não nomear. Não agora.

Então, como se o universo quisesse quebrar o clima (ou nos punir por tanta insolência), um rugido cortou a noite. Profundo. Gutural. O tipo de som que faz até os predadores pensarem duas vezes. Minhas orelhas se voltaram na direção do som, e vi Liang se enrijecer.

— Perfeito — murmurei, cerrando os punhos. — Porque claro que a noite podia piorar.

Nossos olhares se cruzaram. A desconfiança ainda estava lá, firme e teimosa, mas havia algo mais forte que isso: instinto de sobrevivência. Não gostava da ideia — na verdade, detestava — mas lutar lado a lado com ele era melhor do que ser despedaçada por... seja lá o que estivesse vindo.

— Só pra constar — falei, já me virando para encarar a escuridão à frente — isso não faz de nós amigos.

— Nem nos meus piores pesadelos— respondeu Liang, as garras surgindo enquanto um sorriso de canto se formava em seus lábios.

E, no fundo da minha mente, uma coisa estava clara: isso era apenas o começo.

Entre presas e chamasWhere stories live. Discover now