o falso sorriso

2 0 0
                                        

O sol de domingo já se despedia no céu tingido de laranja, e da igreja saía uma multidão sorridente — vestidos floridos, camisas engomadas, mãos dadas e sorrisos treinados. Entre eles, a família de Paul parecia o retrato da obediência cristã: Susan com seu vestido azul claro, Jimmy segurando a bíblia infantil contra o peito, e Paul… camisa branca, cabelo penteado, sorriso discreto no rosto.

Mas bastou a porta da casa se fechar para que a paz se estilhaçasse.

— "É esse o jeito que você se senta na casa de Deus, Paul?" — gritou Susan, chutando os sapatos no canto da sala. — "De pernas abertas, encostado como se tivesse num bar? Isso é postura de um homem temente ao Senhor?"

Paul tirou o paletó com brutalidade, jogando no sofá com desprezo.

— "E por isso esse menino é mal educado!" — continuou ela, apontando para o pequeno Jimmy, que estava na cozinha tentando pegar cereal escondido. — "Tem que ser a sua cara mesmo, né? Olhos claros, cabelo igual, a mesma personalidade de cafajeste que você tem!"

Paul não disse nada. Só olhou com raiva. Aquela raiva velha, acumulada em camadas.
Pegou a carteira no aparador — pesada com dinheiro sujo e algumas gramas de escape — e saiu batendo a porta.

A noite já havia caído, e o cheiro de terra molhada misturado com fumaça era o mesmo de sempre. Paul seguiu o caminho de costume, passando pela cerca enferrujada, cruzando o pasto mal cuidado e chegando até o velho deck de madeira atrás do celeiro abandonado.

Ali, anos atrás, ele encontrava silêncio… e às vezes, companhia.
Acendeu um cigarro, a mão ainda trêmula. Deu a primeira tragada como quem bebe veneno com gosto.

Ficou ali um tempo. Sem contar. Sem pensar.

Mas então… passos. Vultos. Um estalo seco na madeira atrás de si.

— "Tem alguém aí?" — a voz dele saiu mais baixa do que o esperado.

Mais um passo. Ele se virou rápido. E foi quando viu:

Um homem, encostado numa das vigas. Corpo levemente mais forte, pele morena, olhos escuros escondendo séculos de pensamento.

— "Thomas?" — Paul falou sem acreditar. O nome quase morreu na garganta.

— "Paul." — o outro respondeu, tragando o cigarro com familiaridade. — "Ainda vindo aqui, hein?"

Silêncio. Os dois se encaram como fantasmas que voltam a andar.
Não eram amigos de verdade. Nunca foram. Mas sabiam um do outro mais do que qualquer confissão de fé jamais permitiria.

— "Você tá morando por aqui?" — Paul perguntou, tentando parecer natural.

— "Voltei há uns meses. Criança precisa de pai presente, né?" — Thomas riu sem humor. — "Pelo menos é o que dizem por aí."

Eles conversam. Sobre nada. Sobre tudo. Sobre a igreja, os filhos, as esposas que gritam. E aquela tensão muda no ar que nenhum dos dois ousa nomear. Porque nunca houve beijo, nem toque. Só negação e fuga. E agora, a memória viva bem ali, de pé, tragando a mesma angústia.

Já era quase 3 da manhã quando Paul volta pra casa.

Fedendo a álcool, cigarro, e alguma coisa que não tem nome — talvez arrependimento.

Entra pela porta dos fundos, joga a carteira na mesa, cai no sofá como um corpo morto. Dorme pesado, atravessado no estofado sujo.

Horas depois, a luz da manhã invade a sala e o rosto amassado de Susan aparece como uma tempestade.

— "Se não fosse por mim, essa casa já teria ido pro inferno junto contigo, Paul!" — ela rosna, pegando as roupas do chão. — "Ninguém faz nada aqui se eu não levantar!"

Ele não responde. Não dessa vez. Só resmunga algo incompreensível e volta a dormir, virando o rosto para o encosto do sofá como se quisesse desaparecer.

entre o amor de ser humano e o amor de ser de Deus Histórias para pegar e não largar. Descubra agora