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A luz da manhã entrava pelas janelas sujas da sala de ciências, se espalhando sobre as mesas riscadas e os rostos cansados dos alunos. Tudo parecia comum — comum até demais. O tipo de manhã que você esquece assim que o dia acaba. A professora falava sobre cloroplastos como se ela mesma estivesse fotossintetizando de tédio. Eu fingia anotar, mas estava mais interessada nos detalhes ao meu redor:
O garoto do lado direito tinha uma mancha de tinta azul na ponta dos dedos. Ele desenhava quadrinhos escondido sob a mesa, provavelmente convencido de que ninguém percebia.
A garota à frente de Ginny estava com o zíper da mochila aberto e um absorvente escapando pela lateral — ninguém avisava.
O ventilador de teto fazia um som insistente, quase hipnótico. Uma das pás estava torta. Eu gosto de reparar nessas coisas. Me faz sentir no controle.
Me faz esquecer o que eu não controlo. Ao meu lado, Ginny prestava muita atenção no que a professora falava. Ela não gostava disso, ela não gostava de ser nova mais eu de certo modo gostava.
Que dizer, eu poderia ser quem eu quiser, ninguém me conhecia e eu sabia que não ficaria ali por muito tempo. Pensei em dizer que ela ia se acostumar. Mas não disse.
Estava prestes a voltar ao meu caderno quando a porta da sala se abriu devagar. A coordenadora, Sra. Green, entrou com passos suaves e um rosto que parecia mais pálido do que o normal.
Ela não olhou para a turma inteira, só procurou por nós.
— Ginny. Adeline. Diretoria, por favor. Agora. Alguns alunos fizeram aquele som de surpresa abafada, como se isso fosse só mais uma rebeldia nossa.
Não era raro sermos chamadas por alguma provocação da Ginny ou por alguma ironia minha mal colocada.
Mas dessa vez... a voz da Sra. Green não parecia irritada.
Parecia... estranha. Me levantei primeiro. Ginny hesitou, mas me seguiu.
— Você fez alguma coisa? — ela perguntou, baixinho.
— Não. Você fez? — devolvi no mesmo tom. — Acho que não. Mas talvez?
Revirei os olhos. A gente atravessou o corredor lado a lado, os passos ecoando no silêncio desconfortável entre os armários. Eu sentia uma pontada no estômago — não era culpa. Era um pressentimento. Algo estava errado. Entramos na sala da diretora. O ambiente era gelado, tanto pela temperatura quanto pelo clima.
A diretora Mrs. Hawkins estava sentada atrás da mesa, com os cotovelos apoiados e os dedos entrelaçados como se estivesse segurando algo frágil.
Ela sorriu, mas era um sorriso triste. E meu corpo imediatamente soube.
— Meninas... podem se sentar, por favor.
Não era uma bronca.
Ginny sentou primeiro. Eu sentei ao lado dela, com a coluna reta, como se me preparar fisicamente fosse me proteger emocionalmente.