Ana Flávia
Acordei com Marlene, a funcionária aqui de casa, abrindo as cortinas do meu quarto. Levantei e comecei a me arrumar para ir à faculdade. Suspirei. Mais um dia.
Minha mãe, como sempre, está viajando, e meu pai continua trancado no escritório, ocupado demais para qualquer coisa.
Quando entrei na faculdade, estava cheia de dúvidas sobre o que queria da vida. Hoje, curso Medicina — ainda tentando me convencer de que foi a escolha certa.
Antes da aula, lembrei que marquei de encontrar minhas amigas na cafeteria. Gabi tinha algo importante para contar, então peguei meu carro e fui rapidamente até lá.
— VOCÊ TÁ FICANDO COM O MURILO HUFF?! — Duda e eu gritamos em uníssono, chocadas com a revelação de Gabriela.
Murilo Huff. Um dos garotos mais insuportáveis da faculdade. Só perde para Gustavo Pierone Mioto — filho de Marcos e Jussara, amiga de infância da minha mãe.
— Falem baixo, vocês querem que a cafeteria inteira ouça? — Gabi tentou nos silenciar, cobrindo nossas bocas.
Tudo muito repentino. Pressinto que esse relacionamento vai acabar mal: ou ela engravida, ou vai sair com o coração partido.
— Gabi, você só pode ter batido a cabeça. Como isso aconteceu? — perguntou Duda, ainda incrédula.
Gabi começou a contar, mas deixei de ouvir no momento em que Vetuche, Murilo e Gustavo entraram na cafeteria. Os três idiotas. Os três porquinhos. Os esquilos. Gustavo e os esquilos. (Sim, eu invento apelidos).
Murilo cumprimentou Gabi com um selinho.
Argh.
— Oi, furacão — disse Gustavo, me provocando como sempre. Nós dois nunca nos demos bem.
— Oi — respondi seca. Se ele não saísse dali logo, eu ia perder o controle.
— Cumprimenta ele direito, Ana Flávia! — Gabi me deu um tapa leve na cabeça.
Revirei os olhos. Não ia cumprimentar. Não mesmo.
Ficamos em silêncio enquanto os outros conversavam. Duda e Vetuche falavam sem parar. Gabi e Murilo também.
Um verdadeiro coral de maritacas.
Cansada daquela conversa fiada, resolvi ir para a sala.
— Gente, não aguento mais. Vou pra aula — despedi-me e saí.
Logo a sala encheu e o professor chegou. Era o professor Rafael, de História. Uma das aulas que eu menos gosto.
Tentei me concentrar, mas parece que algumas pessoas têm prazer em me tirar do sério.
Gustavo Mioto, por exemplo.
Aquela criança não parava de me lançar bolinhas de papel.
— Para, Gustavo — sussurrei.
Ele continuava. Por que essa praga senta do meu lado?
— Para, Gustavo! — falei mais alto.
Ok, não gritei. Mas pro professor Rafael, que é extremamente rigoroso, foi suficiente para ele reagir.
— Ana Flávia, o que está acontecendo? — ele perguntou, me encarando.
— Ele não para de jogar essas malditas bolinhas de papel! Que saco! Menino insuportável! — explodi, antes que pudesse filtrar minhas palavras. Me ferrei.
— Ana Flávia e Gustavo, diretoria. Agora. — ordenou, com firmeza.
— Mas, professor... — tentei argumentar.
