CAPÍTULO UM

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A campainha da pequena papelaria Monteiro & Filha soou, suave como um sino antigo. Laura ergueu os olhos do caderno onde rabiscava ideias para seu próximo conto e sorriu. Era uma terça-feira chuvosa, e as chances de alguém aparecer ali eram quase nulas.

Mas ele apareceu.

Vestindo um sobretudo cinza-escuro encharcado, os cabelos negros caindo em desalinho sobre a testa, ele entrou como um trovão silencioso, sacudindo um guarda-chuva dobrado nas mãos. Laura sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha antes mesmo de reconhecê-lo.

— Com licença… — disse a voz, rouca, mas familiar.

Ela arregalou os olhos.

Não podia ser.

— Enrico?

Ele franziu o cenho por um instante e, ao vê-la, piscou como se o passado tivesse acabado de bater à sua porta com cheiro de papel novo e tinta fresca.

— Laura Monteiro?

O nome dito por ele, com aquele leve sotaque aristocrático que nunca perdeu, soou como uma nota aguda no coração dela.

— Eu... não sabia que você ainda morava aqui — disse ele, meio desconcertado, observando as prateleiras lotadas de cadernos artesanais, canetas-tinteiro e papéis decorados.

Laura ajeitou os cabelos atrás da orelha, tentando recuperar o fôlego e a dignidade.

— Não só moro, como sou a dona deste lugar agora. Mamãe se aposentou no ano passado. — Sorriu com um certo orgulho. — E você? O que faz aqui em Aurora?

— Estou de passagem. Vim resolver umas coisas da empresa da minha família. — Ele hesitou. — Acabei me perdendo e entrei por acaso. A chuva...

— Claro — disse ela, num tom educado, quase frio. Mas o coração batia em disparada.

O último encontro deles havia sido no baile de formatura, há oito anos. Laura usava um vestido azul-claro, feito à mão pela mãe, e Enrico havia ido acompanhado de uma garota loira de salto dourado, filha de um juiz estadual. Ele sequer lhe dissera adeus naquela noite.

— Você... parece bem — comentou ele, aproximando-se do balcão.

— E você parece molhado — retrucou, com um leve riso sarcástico.

Enrico deu de ombros. Aquilo, de algum modo, os quebrou.

— Posso ver os cadernos artesanais?

Laura apontou para uma prateleira.

— Aquela fileira da esquerda. Papel reciclado, capa dura, alguns com fechamento em couro. Tem um que costurei com linha vermelha, se gosta de detalhes.

Ele puxou um exemplar com cuidado. Abriu. Folheou. Tocou como se tivesse encontrado algo raro.

— Você ainda escreve?

Ela parou por um segundo.

— Sempre. Mas não para os outros lerem. E você?

— Curiosamente... estou escrevendo um livro.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Você? Um livro?

— Sim. — Sorriu de lado. — Surpreendente, não é?

— Um pouco.

— Mas estou com bloqueio criativo. Há meses.

Laura cruzou os braços, meio sem saber se acreditava nele. Enrico sempre tivera essa tendência a teatralizar a própria vida.

— O que trouxe você aqui, de verdade?

Ele hesitou. Olhou ao redor, como se estivesse pesando a decisão.

— Posso ser honesto?

— Por favor.

— Estou tentando provar para minha família que sou capaz de fazer algo por conta própria. Meu pai quer me colocar na gerência da empresa, mas eu quero escrever. Só que fiz uma aposta. Disse que terminaria meu livro até o final do mês. Se eu conseguir, recebo uma parte do investimento de que preciso para abrir minha própria editora.

— E se não conseguir?

— Volto para o mundo corporativo como herdeiro obediente.

— Então... você está aqui porque acredita que eu posso te ajudar?

— Estou aqui porque sei que você pode.

O silêncio pairou por alguns segundos. A chuva tamborilava no toldo da vitrine. Laura se sentia no meio de um roteiro mal escrito. Uma aposta. Um herdeiro. Um reencontro. Tudo clichê demais para ser verdade.

— E por que eu ajudaria?

— Porque você sempre foi a melhor com as palavras. E porque... eu nunca me esqueci de você.

As palavras caíram como tinta sobre papel virgem.

Laura não respondeu. Apenas desviou o olhar para a vitrine, onde a chuva agora parecia desenhar versos invisíveis.

Mas antes que ele saísse, ela disse, num sussurro:

— Amanhã. Às nove. Traga suas ideias.

Enrico se virou, surpreso.

— Está dizendo que vai...

— Só vou ouvir o que você tem. Se for ruim, te coloco para fora.

Ele sorriu. Aquele sorriso torto de quando ele sabia que já havia vencido metade da guerra.

— Estarei aqui.

E saiu, deixando no ar o cheiro de chuva e um turbilhão de lembranças antigas.

Laura olhou para o caderno onde rabiscava antes de ele entrar. Pegou uma caneta. E sem entender muito bem o porquê, escreveu:

“Capítulo 1 – O retorno do passado.”

ENTRE CANETAS E TINTASHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora