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𝑨 𝑽𝒐𝒛 𝑫𝒆𝒃𝒂𝒊𝒙𝒐 𝒅𝒂 𝑻𝒆𝒓𝒓𝒂

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O continente não conhecia o tempo como o mundo dos mortais. Lá, os dias não seguiam os ponteiros dos homens, mas os humores da terra e o silêncio das estrelas. E naquela manhã, em Ael'Varanor, a fortaleza coroada entre montanhas de pedra viva, o silêncio estava pesado demais para ser apenas silêncio.

Arwen Ratholdir despertou antes do sol. O quarto, escavado nas entranhas da muralha, ainda dormia em sombras azuladas. As tapeçarias bordadas com constelações ancestrais tremulavam levemente, embora não houvesse vento algum.

Ela sentou-se na beira da cama, os pés nus tocando o chão frio. Sentia o sangue pulsar em suas têmporas com uma intensidade incômoda — como se seu próprio corpo não a reconhecesse mais.

Um sussurro atravessou o aposento, tão baixo que poderia ser apenas um pensamento:

"𝐅𝐢𝐥𝐡𝐚 𝐝𝐨 𝐬𝐮𝐬𝐬𝐮𝐫𝐫𝐨 𝐞 𝐝𝐨 𝐫𝐚𝐢𝐨... 𝐩𝐨𝐫 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐝𝐨𝐫𝐦𝐞𝐜𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐨 𝐦𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐞𝐫𝐭𝐚?"

Arwen não se assustou. Não mais. Nos últimos meses, sons estranhos se tornaram parte de suas manhãs, vozes que pareciam vir das raízes das montanhas, do mármore das colunas, da própria água nos jarros. Vozes que não tinham rosto, mas traziam peso. Peso de memória, de tempo, de promessa.

Ela se levantou, cruzou o aposento e abriu as janelas altas de pedra. A névoa envolvia Golkrath como um lençol de mármore esculpido. A cidade ainda repousava, seus telhados em silêncio, os jardins suspensos imóveis sob a névoa.

Ael'Varanor, porém, nunca dormia completamente.

— Você está pálida — disse uma voz atrás dela.

Ela não se virou. Sabia quem era.

Caranthir.

Seu pai.

Sua voz era o som do trovão quando ainda está preso nas nuvens: carregado, contido, mas inevitável.

— Teve outro sonho?

Ela assentiu, os olhos ainda voltados para a névoa lá fora.

— Acho que estão me chmando. Mas não com palavras. Era como... como se os elementos me tocassem ao mesmo tempo. A água queimava. O fogo era frio. A terra tremia. O ar pesava.

Caranthir se aproximou, parando a poucos passos.

— E o espírito?

— 𝗚𝗿𝗶𝘁𝗮𝘃𝗮.

Ela virou-se então, encarando o homem que, para o mundo, era o regente do continente. Mas, para ela, era o olhar sempre velado, o abraço que hesitava, a dor nunca dita. O homem que amara uma mulher de poder demais e agora olhava para a filha com temor do que ela poderia se tornar.

— Você está próxima, Arwen — ele disse, com pesar. — Os cinco te reconhecerão. E deixarão de esperar.

Ela respirou fundo, a pele formigando, como se o ar ao seu redor vibrasse em outra frequência.

— E o que acontece quando deixarem de esperar?

Caranthir a olhou com a dureza de quem sobreviveu a cem invernos e cem guerras, mas nunca venceu a batalha contra o tempo.

— Ou você os dominará... ou será consumida por eles.

Um relâmpago cortou o céu, mesmo sem nuvens. E o trovão que se seguiu pareceu nascer do chão, não do alto. A fortaleza sentiu. As pedras estremeceram. E uma fissura sutil correu por uma das colunas do salão, como uma cicatriz escrita por um dedo antigo.

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⏰ Última atualização: Jun 25, 2025 ⏰

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