Nova York fervia naquele fim de tarde de outono, mas o vento carregava uma promessa de mudança. As ruas em torno do colégio pareciam sempre corridas, barulhentas, intensas - como se ninguém ali pudesse parar por mais de um segundo. Mas Maraisa parou.
Ela girou em seu próprio eixo, observando a frente da escola com os olhos cheios de brilho. Um prédio antigo, pátios com folhas amarelas caídas, pessoas andando apressadas, algumas com fones, outras rindo em grupos. Sentiu um friozinho na barriga. Era o sonho dela estudar ali, foi a primeira coisa que veio em sua mente quando descobriu que seus pais, ela e sua irmã teriam que se mudar para Nova York. Por causa do trabalho de seu pai. Era o primeiro dia dela ali, ao lado da irmã gêmea, Maiara.
- Maraisa, por favor, tenta não ficar admirando cada árvore da Trinity - Maiara disse, com aquele tom de implicância.
- Eu só acho que as árvores contam histórias. Você devia tentar ouvir alguma.
Maiara revirou os olhos, mas não respondeu. Sabia que tentar controlar a sensibilidade de Maraisa era como tentar segurar a chuva com os dedos.
Naquela mesma tarde, durante uma das primeiras aulas introdutórias, Maiara acabou se sentando ao lado de uma garota mais velha, com cabelo loiro claro liso preso de qualquer jeito e uma tatuagem delicada no antebraço.
- Você é nova? - a garota perguntou, ao ver maiara organizando os materiais com uma precisão.
- Sim. Eu e minha irmã. Chegamos ontem.
- Irmã? Ela parece com você?
- Idêntica - Maiara sorriu. - Mas é insuportavelmente poética.
Luisa deu uma risada de canto e logo achou graça na sinceridade da outra.
- Então vou gostar dela. E de você também, talvez. - sorriu divertida. - me chamo Luisa.
- Maiara - respondeu a garota fingindo um tom sério, oque arrancou risada da outra.
A conversa fluiu. Algo naquele olhar engraçado de Maiara prendia a atenção de Luisa.
-
O intervalo entre as aulas fazia o pátio parecer um formigueiro humano. Grupos espalhados pelo chão, pelas mesas de pedra, nos degraus dos prédios. O som de vozes, risadas.
Maraisa equilibrava uma maçã na mão enquanto acompanhava Maiara até um dos bancos sob a árvore grande que ficava entre os blocos principais.
- Ela disse que ia chegar aqui - Maiara murmurou, olhando ao redor.
- Ela quem?
Antes que pudesse responder, Luisa apareceu, carregando uma mochila de um lado só e com um copo de suco na mão.
- Ei! - Ela chamou a atenção das garotas. - Sobreviveram às primeiras aulas?
- Por enquanto - Maiara respondeu com um meio sorriso.
Maraisa ficou de pé. Luisa virou-se para ela com curiosidade.
- Você deve ser a irmã poética.
- Poética? - Maraisa perguntou olhando para Maiara, que sorriu. - Eu acho que sim.
Luisa riu.
- Gosto de você já. Quer dizer que a Maiara tem uma gêmea que é séria?
- Ela tem sentimentos, só que esconde bem - Maiara disse, piscando para a irmã, que revirou os olhos.
- Bom, já que vamos construir o nosso grupo alternativo de pessoas semi-sociais, quero apresentar alguém. Bruno! - Luisa gritou olhando em direção ao pátio, aonde as garotas seguiram seus olhos.
Do outro lado do pátio, um garoto alto com cabelo castanho bagunçado, camiseta cinza com estampa retrô e mochila pendurada num ombro olhou em direção à Luisa. Ele veio andando devagar, mastigando algo.
- Bruno, essas são as novas meninas que te falei.
- E aí - ele disse, com um sorriso simpático. Depois olhou direto para Maraisa. - Você parece aquele tipo de garota que tem um diário secreto com pensamentos muito profundos.
- Talvez eu tenha dois.
- Hum. Gosto dela - Bruno respondeu, dando um toque com o cotovelo em Luisa.
- Bruno é meu melhor amigo e também é... digamos... terapeuta não oficial da minha irmã, Marília.
- ouvi falar dessa garota, as pessoas parecem conhecer bem ela. - Maraisa comentou, nem muito humor.
- Marília ... é a garota que tava desenhando no chão da sala, né? - Maiara comentou.
Mais cedo, quando saia da primeira aula ao lado de Luisa, passou por uma das sala e avistou uma garota que desenhava por lá, sentada no chão. Luisa disse que era sua irmã, mas não entrou em detalhes e Maiara também não perguntou mais.
- Exatamente. - Luisa respondeu. - E... bom, aproveitando que a gente tá aqui: hoje à noite vai ter pizza lá em casa. Marilia vai estar lá. Já avisei ela que vocês vão. Espero que não tenham planos.
Maraisa hesitou, mas Maiara respondeu antes:
- A gente vai sim.
Luisa sorriu.
- Marília não se importa, ela mal fala com as pessoas na verdade. - Luisa comentou suspirando.
- Se a Marília te olhar duas vezes, já é tipo... nível máximo de interesse. Ela não olha duas vezes pra ninguém. - Foi a vez de Bruno comentar.
.
pouco depois, enquanto seguiam para as proximas aulas, o grupo parou na entrada do prédio. Luisa apontou para um canto do corredor, onde Marília estava encostada na parede, com fone de ouvido, mexendo no celular. Ao lado dela, Gabriela - sua namorada - falava animadamente com outra garota, mas Marília parecia desconectada.
- Tá ali - Luisa disse. - Ei, Marília!
Marília olhou em direção a Luísa, sem levantar muito o rosto e tirou um dos fones.
- Oi. - respondeu simples, com uma expressão neutra.
- Essas são as novatas que te falei. Maiara e Maraisa. Vão lá em casa hoje à noite.
Marília levantou os olhos. Primeiro, olhou para Maiara. Um segundo. Depois, para Maraisa
O olhar durou meio segundo a mais do que o necessário.
Maraisa sorriu de leve. Marilia não retribuiu - mas não desviou também. Era como se olhasse para dentro dela.
Gabriela virou-se logo em seguida, passando o braço pela cintura de Marília com naturalidade. Puxou-a para perto e beijou seu rosto, marcando território.
- Elas são suas amigas agora, Lu? - perguntou olhando para as duas meninas de cima a baixo
- São. Estou tentando ser legal. Você devia tentar também, Gabi. - Luisa respondeu.
Gabriela fingiu sorrir.
Marília voltou a colocar o fone. Mas, antes de baixar o olhar de vez, seus olhos encontraram os de Maraisa uma última vez.
E dessa vez, ela reparou no grampo de estrela no cabelo dela. Só depois desviou.
Maraisa ficou parada. Fingiu normalidade.
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Aconteceu entre aulas - Malila
FanfictionMarília era a fechada do colégio, e presa a um namoro por aparência. Maraisa chegou nova, espontânea, e virou seu mundo de cabeça pra baixo. Entre olhares, ciúmes, festas, bilhetes e descobertas, o que começou entre aulas virou amor de verdade. ess...
