Primeiro encontro:
A faculdade tinha aquele cheiro peculiar de café requentado, papel novo e sonhos um pouco amassados. Bel adorava aquilo. O burburinho nos corredores, as vozes misturadas com risadas, a movimentação constante. Era como se cada pessoa ali fosse um personagem de uma história em construção — e ela queria conhecer todas elas.
Já na primeira semana de aula, Bel fez amizade com metade da turma de Comunicação. Era fácil. Ela falava, as pessoas respondiam, e de repente estavam todos trocando memes no grupo da sala e combinando de ir ao barzinho da esquina depois da aula.
Menos Noah.
Ela notou ele no terceiro dia. Sentado na penúltima fileira da sala 203, encostado na parede, com o capuz levantado mesmo com o calor insuportável da tarde. Ele ficava ali, fones no ouvido, olhos fixos no notebook, como se estivesse num universo à parte. E não respondia a ninguém.
Bel odiava aquilo.
— Gente, qual é a dele? — ela perguntou a Camila, uma das meninas que conheceu no primeiro dia, enquanto saíam da aula de Teoria da Comunicação. — Acha que é o Batman ou só tem um trauma social?
Camila riu, mas não respondeu. Só disse que ele era "na dele". Bel não entendia esse tipo de gente. "Na dele" era só outra forma de dizer "antipático disfarçado".
Na semana seguinte, o professor organizou um trabalho em duplas. E como o destino adora brincar com a paciência das pessoas, lá estava ela, ouvindo o nome "Isabel Oliveira e Noah Almeida" saírem da boca do professor com toda a calma do mundo, como se isso não fosse um atentado à sua energia vital.
— Sério isso? — ela murmurou, mais para si mesma do que para alguém em específico.
Noah, por sua vez, levantou o olhar por um breve segundo. Longo o bastante para cruzar os olhos com os dela. E depois voltou ao notebook, como se nada tivesse acontecido.
Perfeito.
Eles se encontraram pela primeira vez como dupla na biblioteca. Bel chegou com um copo de chá gelado, uma mochila lotada e uma playlist tocando no fone. Noah já estava lá, como uma sombra silenciosa, com o laptop aberto, vários arquivos na tela e uma expressão de tédio absoluto.
— Oi, Noah! — ela disse, animada demais para o ambiente silencioso.
Ele assentiu com a cabeça, sem dizer uma palavra.
— Beleza, então. Vamos lá. A gente precisa definir o tema do trabalho. O professor sugeriu três opções, mas eu tive uma ideia melhor... — Bel começou a falar e não parou. Dez minutos depois, já tinha desenhado uma proposta inteira sobre como a linguagem da mídia influencia nas relações interpessoais, com direito a subtítulos e estrutura de apresentação.
Noah apenas olhou para ela. E suspirou.
— A gente mal começou e você já decidiu tudo sozinha? — ele disse, com a voz baixa, porém firme.
Bel arregalou os olhos.
— Ué, desculpa por tentar ser produtiva? Achei que você fosse um daqueles caras que só aparece no dia de apresentar.
— E eu achei que você fosse do tipo que fala só pra ouvir a própria voz — ele respondeu, calmamente.
Bel piscou, surpresa. Quase se ofendeu. Quase.
— Ok, então. Por que você não diz o que pensa em vez de me olhar como se eu fosse uma interrogação ambulante?
Noah fechou o notebook com um estalo discreto. Ela percebeu que ele respirava fundo antes de responder qualquer coisa — como se cada frase fosse escolhida com o cuidado de quem anda sobre vidro quebrado.
— Eu só acho que você fala demais antes de escutar. E isso pode ser um problema quando se trabalha em dupla.
Foi um choque. Não porque ele disse algo imperdoável — mas porque, no fundo, ela sabia que havia uma pontinha de verdade ali. Bel tinha pressa em tudo. Em conhecer, em falar, em resolver.
— Tá bom — ela disse, cruzando os braços. — Então fala. Tô ouvindo.
Ele olhou para ela, como se não esperasse que ela cedesse tão rápido. Talvez nem esperasse que ela cedesse, ponto final.
— A sua ideia é boa — ele admitiu. — Mas é ampla demais. A gente tem pouco tempo. Seria mais prático escolher uma das opções do professor e desenvolver bem, do que tentar abraçar o mundo.
Ela mordeu o lábio inferior. Ok, isso fazia sentido. E ela odiava que fizesse sentido.
— Certo. Vamos escolher a opção dois, então. Aquela sobre o impacto das fake news. Dá pra amarrar com exemplos atuais, e... — Ela percebeu o sorriso de canto no rosto dele. Pequeno. Quase imperceptível. — O que foi?
— Nada. Só achei que fosse mais difícil convencer você.
Bel riu.
— Acontece que eu também sei ouvir, sabia? Às vezes. Com esforço.
Noah não respondeu, mas o sorrisinho ainda estava ali quando voltou a abrir o notebook. Bel notou que ele não era tão sem graça assim. Só... quieto. Reservado. Do tipo que pensa duas vezes antes de gastar uma palavra.
Ela ainda achava ele irritante.
E ele ainda achava ela insuportavelmente barulhenta.
Mas, por alguma razão, naquele momento, isso parecia apenas... interessante.
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Do outro lado do Adeus
RomanceBel fala demais. Noah quase não fala. Ela é barulho, caos e abraços espontâneos. Ele é silêncio, rotina e olhares que dizem mais que palavras. Quando os dois são obrigados a trabalhar juntos na faculdade, o resultado parece inevitável: irritação à p...
