Havia algo errado com o céu naquela noite.
Lyra Hale olhava pela janela do pequeno chalé onde morava com a avó, tentando ignorar a sensação estranha que se arrastava sob sua pele. O luar parecia mais forte, como se empurrasse contra os vidros com uma urgência silenciosa. As árvores dançavam ao vento, mas seus galhos pareciam mãos — dedos longos apontando para algo invisível.
Ela suspirou, abraçando os joelhos no sofá. O cobertor cheirava a lavanda e magia antiga. Vovó Hester sempre dizia que algumas noites não eram apenas noites — eram presságios. E que a lua, quando sussurrava, não o fazia em vão.
Aos dezenove anos, Lyra se considerava prática. Gostava de café forte, livros de história e silêncio. Mas nem toda racionalidade explicava a marca em forma de lua crescente que pulsava em seu pulso direito desde o nascimento. Uma cicatriz que queimava em noites como aquela, mesmo quando o ar estava gelado.
A avó não aparecera desde a manhã. Isso não era incomum — Hester Hale era conhecida por seus passeios solitários pela floresta. Porém, algo naquela ausência gritava. Um silêncio muito profundo, muito denso.
Lyra tentou distração, pegando o diário sobre a mesinha. As páginas estavam repletas de desenhos da floresta, registros de sonhos, fragmentos de frases que vinham à mente sem aviso. Um deles, rabiscado dias antes, dizia: "Quando a lua sangrar, tudo mudará."
Ela não lembrava de ter escrito aquilo.
A lareira crepitava, lançando sombras inquietas pelas paredes. Um vento mais forte bateu contra a janela. E foi nesse instante que ela ouviu — um estalo seco. Como galhos quebrando... ou ossos.
Levantou-se devagar, os pés descalços tocando o assoalho frio. Pegou a lanterna no aparador e a jaqueta de lã da avó. Um impulso estranho a fez sair. Um chamado sem palavras.
Do lado de fora, a floresta parecia viva. O caminho conhecido estava ali, mas envolto por uma névoa baixa. O luar filtrava-se entre os troncos, tingindo tudo de prata antiga. E ali, no meio da trilha, algo cintilava.
Um colar. O pingente da avó. Um cristal envolto por raízes de prata. Lyra o reconheceu de imediato — era o artefato que Hester nunca tirava do pescoço. Seu coração bateu mais forte.
— Vó...? — chamou, a voz quebrando o ar como vidro.
Nenhuma resposta.
Mais passos. Mais adiante. Ela correu.
A floresta parecia mais funda do que nunca. Sons de corujas, galhos rangendo, um murmúrio indecifrável que flutuava entre as folhas. E então, ela chegou à clareira.
O cheiro de sangue a atingiu primeiro.
A luz da lua banhava o círculo de pedras antigas — o mesmo que ela já vira nos sonhos, embora nunca tivesse estado ali. No centro, a avó jazia no chão, os olhos abertos, fixos no céu. Sua boca estava entreaberta, como se ainda tentasse pronunciar algo.
Lyra caiu de joelhos.
— Não... não, por favor...
O mundo girava ao redor. A dor era algo bruto, primal, impossível de processar. Mas, mesmo em meio ao luto, ela sentiu. Algo despertava. A marca no pulso queimava intensamente, como se estivesse viva. E a lua — oh, a lua — parecia mais próxima do que nunca.
De repente, o vento cessou.
E ela não estava mais sozinha.
Duas figuras se destacaram na penumbra. Uma presença alta, escura, como uma sombra com olhos de brasa. E outra, mais feroz, selvagem, com olhos dourados que brilhavam como faróis. Nenhum dos dois parecia totalmente humano.
Lyra recuou, ofegante.
— Quem são vocês?
O de olhos vermelhos deu um passo à frente. Havia algo hipnótico nele. Um magnetismo silencioso. Os cabelos negros caíam até os ombros, e sua voz, quando surgiu, era como seda molhada em sangue.
— Você é Lyra Hale.
Ela hesitou.
— Como sabe meu nome?
— Porque há séculos estamos esperando por você.
A outra figura rosnou, visivelmente tensa.
— Não se aproxime dela assim, Dorian. Ela está em choque.
— Como se você fosse a calma em pessoa, Kael — respondeu o vampiro com um meio sorriso.
O lobo — era o que Kael parecia ser, mesmo na forma humana — mostrou os dentes. Havia fúria, mas também algo mais. Uma necessidade de protegê-la. Como se o instinto falasse mais alto que a razão.
Lyra, no entanto, não ouvia mais. A marca em seu pulso estava em chamas. E, de repente, palavras invadiram sua mente. Não eram suas, mas estavam ali, nítidas como se alguém as gritasse:
"A herdeira desperta quando o sangue toca o altar."
Ela olhou para as pedras. Havia sangue escorrendo até ali. Da avó. Seu sangue.
E então, tudo explodiu em luz.
Uma força irrompeu do chão, uma onda de energia tão antiga quanto o mundo. Símbolos acenderam-se nas pedras, nos troncos, até no céu. Lyra gritou, agarrando o pulso, mas a dor já era maior que tudo.
Dorian correu até ela, ignorando Kael. Segurou seu rosto entre as mãos.
— Está começando. Ela está despertando.
Kael tentou impedi-lo.
— Não toque nela!
Mas era tarde. Os olhos de Lyra tornaram-se totalmente brancos por um instante.
Ela viu.
Viu sombras caminhando. Viu uma cidade em chamas. Viu um beijo que alterava destinos. Viu uma mulher idêntica a si mesma... morrer nos braços de Dorian. Viu o próprio reflexo, com olhos dourados e pele coberta por runas.
E então, desmaiou.
Quando caiu nos braços do vampiro, o mundo pareceu segurar o fôlego novamente.
Kael se aproximou, tenso, o maxilar travado.
— A guerra começou.
Dorian olhou para o céu. A lua sangrava. E ele sussurrou, para ninguém em especial:
— Que os deuses tenham piedade de nós.
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Entre Sombras e Luar
Vampire🌙 Sinopse de Entre Sombras e Luar Autoria original: Beatriz Dias Quando a lua sussurra o seu nome, não há como fugir do destino. Após perder a avó em circunstâncias brutais, Lyra Hale, uma jovem marcada por uma meia-lua misteriosa no pulso, vê sua...
