🌑 Capítulo 1 - A Lua Chamou Meu Nome

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Havia algo errado com o céu naquela noite.

Lyra Hale olhava pela janela do pequeno chalé onde morava com a avó, tentando ignorar a sensação estranha que se arrastava sob sua pele. O luar parecia mais forte, como se empurrasse contra os vidros com uma urgência silenciosa. As árvores dançavam ao vento, mas seus galhos pareciam mãos — dedos longos apontando para algo invisível.

Ela suspirou, abraçando os joelhos no sofá. O cobertor cheirava a lavanda e magia antiga. Vovó Hester sempre dizia que algumas noites não eram apenas noites — eram presságios. E que a lua, quando sussurrava, não o fazia em vão.

Aos dezenove anos, Lyra se considerava prática. Gostava de café forte, livros de história e silêncio. Mas nem toda racionalidade explicava a marca em forma de lua crescente que pulsava em seu pulso direito desde o nascimento. Uma cicatriz que queimava em noites como aquela, mesmo quando o ar estava gelado.

A avó não aparecera desde a manhã. Isso não era incomum — Hester Hale era conhecida por seus passeios solitários pela floresta. Porém, algo naquela ausência gritava. Um silêncio muito profundo, muito denso.

Lyra tentou distração, pegando o diário sobre a mesinha. As páginas estavam repletas de desenhos da floresta, registros de sonhos, fragmentos de frases que vinham à mente sem aviso. Um deles, rabiscado dias antes, dizia: "Quando a lua sangrar, tudo mudará."

Ela não lembrava de ter escrito aquilo.

A lareira crepitava, lançando sombras inquietas pelas paredes. Um vento mais forte bateu contra a janela. E foi nesse instante que ela ouviu — um estalo seco. Como galhos quebrando... ou ossos.

Levantou-se devagar, os pés descalços tocando o assoalho frio. Pegou a lanterna no aparador e a jaqueta de lã da avó. Um impulso estranho a fez sair. Um chamado sem palavras.

Do lado de fora, a floresta parecia viva. O caminho conhecido estava ali, mas envolto por uma névoa baixa. O luar filtrava-se entre os troncos, tingindo tudo de prata antiga. E ali, no meio da trilha, algo cintilava.

Um colar. O pingente da avó. Um cristal envolto por raízes de prata. Lyra o reconheceu de imediato — era o artefato que Hester nunca tirava do pescoço. Seu coração bateu mais forte.

— Vó...? — chamou, a voz quebrando o ar como vidro.

Nenhuma resposta.

Mais passos. Mais adiante. Ela correu.

A floresta parecia mais funda do que nunca. Sons de corujas, galhos rangendo, um murmúrio indecifrável que flutuava entre as folhas. E então, ela chegou à clareira.

O cheiro de sangue a atingiu primeiro.

A luz da lua banhava o círculo de pedras antigas — o mesmo que ela já vira nos sonhos, embora nunca tivesse estado ali. No centro, a avó jazia no chão, os olhos abertos, fixos no céu. Sua boca estava entreaberta, como se ainda tentasse pronunciar algo.

Lyra caiu de joelhos.

— Não... não, por favor...

O mundo girava ao redor. A dor era algo bruto, primal, impossível de processar. Mas, mesmo em meio ao luto, ela sentiu. Algo despertava. A marca no pulso queimava intensamente, como se estivesse viva. E a lua — oh, a lua — parecia mais próxima do que nunca.

De repente, o vento cessou.

E ela não estava mais sozinha.

Duas figuras se destacaram na penumbra. Uma presença alta, escura, como uma sombra com olhos de brasa. E outra, mais feroz, selvagem, com olhos dourados que brilhavam como faróis. Nenhum dos dois parecia totalmente humano.

Lyra recuou, ofegante.

— Quem são vocês?

O de olhos vermelhos deu um passo à frente. Havia algo hipnótico nele. Um magnetismo silencioso. Os cabelos negros caíam até os ombros, e sua voz, quando surgiu, era como seda molhada em sangue.

— Você é Lyra Hale.

Ela hesitou.

— Como sabe meu nome?

— Porque há séculos estamos esperando por você.

A outra figura rosnou, visivelmente tensa.

— Não se aproxime dela assim, Dorian. Ela está em choque.

— Como se você fosse a calma em pessoa, Kael — respondeu o vampiro com um meio sorriso.

O lobo — era o que Kael parecia ser, mesmo na forma humana — mostrou os dentes. Havia fúria, mas também algo mais. Uma necessidade de protegê-la. Como se o instinto falasse mais alto que a razão.

Lyra, no entanto, não ouvia mais. A marca em seu pulso estava em chamas. E, de repente, palavras invadiram sua mente. Não eram suas, mas estavam ali, nítidas como se alguém as gritasse:

"A herdeira desperta quando o sangue toca o altar."

Ela olhou para as pedras. Havia sangue escorrendo até ali. Da avó. Seu sangue.

E então, tudo explodiu em luz.

Uma força irrompeu do chão, uma onda de energia tão antiga quanto o mundo. Símbolos acenderam-se nas pedras, nos troncos, até no céu. Lyra gritou, agarrando o pulso, mas a dor já era maior que tudo.

Dorian correu até ela, ignorando Kael. Segurou seu rosto entre as mãos.

— Está começando. Ela está despertando.

Kael tentou impedi-lo.

— Não toque nela!

Mas era tarde. Os olhos de Lyra tornaram-se totalmente brancos por um instante.

Ela viu.

Viu sombras caminhando. Viu uma cidade em chamas. Viu um beijo que alterava destinos. Viu uma mulher idêntica a si mesma... morrer nos braços de Dorian. Viu o próprio reflexo, com olhos dourados e pele coberta por runas.

E então, desmaiou.

Quando caiu nos braços do vampiro, o mundo pareceu segurar o fôlego novamente.

Kael se aproximou, tenso, o maxilar travado.

— A guerra começou.

Dorian olhou para o céu. A lua sangrava. E ele sussurrou, para ninguém em especial:

— Que os deuses tenham piedade de nós.

Entre Sombras e LuarStories to obsess over. Discover now