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Augusto Ferrari nasceu cercado por luxo, cercado por tudo — menos silêncio.

O berço foi de ouro, mas a vida nunca foi tranquila. Filho único de um casal obcecado por imagem, por status e por poder, aprendeu cedo que, numa família como a dele, amor e cobrança vinham no mesmo pacote.

Guto, como apenas os mais íntimos ousavam chamá-lo, cresceu ouvindo que era especial, o herdeiro perfeito. O problema é que nunca quis ser perfeito. Queria liberdade, velocidade... impacto.

O pai, Eduardo Ferrari, era um empresário influente no ramo automotivo. A mãe, Regina, uma ex-modelo que fez do sobrenome uma marca de prestígio social. Juntos, criaram o filho entre escolas caras, festas impecáveis e pressão constante. Desde pequeno, Augusto sabia que o mundo o observava — e ele aprendeu a retribuir com um sorriso cínico e um brilho desafiador nos olhos.

Aos sete anos, quebrou o nariz do filho de um sócio do pai depois de uma provocação no pátio da escola. Foi suspenso. A mãe chorou. O pai elogiou o soco. E ele? Ele adorou a sensação de poder que aquilo trouxe.

Aos nove, ganhou seu primeiro kart. Começou ali a paixão pelas corridas. A adrenalina, o controle, o risco — tudo fazia sentido quando estava no volante.

Aos doze, entrou para o boxe, depois de arrumar confusão com um garoto mais velho. Descobriu no ringue um lugar onde sua raiva ganhava propósito. Onde o silêncio finalmente existia entre um golpe e outro.

Foi campeão juvenil três vezes. Participou de torneios nacionais e nunca esqueceu o som das arquibancadas vibrando com seu nome. Mas, com o tempo, o esporte limpo deixou de bastar. Ele queria mais. Mais intensidade. Mais liberdade.

Começou a se envolver em lutas clandestinas aos dezessete, escondido dos pais. Não pelo dinheiro, porque isso ele já tinha. Mas pela sensação de ser dono de si. De sentir dor, impacto, conquista — tudo sem amarras.

O mesmo aconteceu com as corridas. Augusto participava de competições oficiais, mas eram as ilegais que o faziam vibrar. Rachas nas madrugadas, apostas altas, carros preparados por mãos que sabiam o que faziam. Ali, ele não era apenas o filho do senhor Ferrari. Era o piloto mais temido da cena underground. O que não tinha medo de bater — nem de morrer.

Mas por trás do garoto invencível, havia o fardo de sempre ouvir a mesma ladainha em casa:

— Está na hora de crescer, Augusto.

— Casamento é a próxima etapa.

— Você precisa de uma mulher séria ao seu lado.

— Que tal aquela filha dos Monteiro? Educada,
discreta, excelente para imagem da família...

Ele ria. Sempre ria.
Casar? Aos 22 anos, com o mundo aos pés?
Nem pensar.

O que os pais chamavam de farra, ele chamava de vida. Corria à noite, lutava em galpões sujos e acordava em camas que não lembrava onde começavam ou terminavam. Era bonito, rico, ousado — e sabia disso.

Usava o charme como arma e o desprezo como escudo.

Mas havia dias em que Augusto se olhava no espelho e se perguntava se tudo aquilo fazia sentido. O dinheiro, os carros, as mulheres, as lutas, o sangue... Às vezes, tudo parecia apenas um jeito elegante de fugir de alguma coisa que não sabia nomear.

Só que, naquele dia, ao descer as escadas da mansão Ferrari com o celular na mão e o cabelo ainda bagunçado pela noite anterior, ele leu a mensagem que mudaria o rumo daquela calmaria arrogante que chamava de rotina:

"Maya Vasconcelos voltou."

Ele parou.
Não que se importasse, é claro.

Era só uma garota do passado.

Uma garota que ele odiava.

Uma garota que sempre o tirou do sério.

Uma garota que fazia tempo demais que ele não via.

Uma garota que agora estava de volta.

E talvez o mundo estivesse prestes a ficar interessante de novo.

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