Capítulo 2

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Nenhuma palavra!

Ele não diz nenhuma palavra quando sai de cima de mim, quando sai de dentro de mim. Ele simplesmente se afasta, colocando distância. Recompõe-se, rapidamente, e então pega a minha camisa e o meu sutiã, que estão jogados pelo chão do escritório, largados de qualquer jeito e entrega-me as peças. Eu ainda estou me erguendo de sua mesa de trabalho e abaixando a minha saia, quando noto que seu olhar me manda para o banheiro privativo.

Jesus!

Ele ordena com um simples olhar. Mas, eu não quero pensar sobre isso, esse é o menor dos meus problemas. O maior deles é o pesar culposo e inconveniente que ocupa todo o espaço entre nós. É o gosto amargo do ato errado que acabamos de cometer.

O que eu quero mesmo é sumir, desaparecer. Me sinto extremamente envergonhada. Quero escapar deste escritório luxuoso e da presença do homem que, agora, me consome. E o banheiro é a minha chance de fugir da situação e do constrangimento, que cai como uma pedra de cem toneladas sobre a minha moral.

Que horror. Como pude perder a cabeça desse jeito?

Meu peito se aperta e o pânico começa a tomar conta do meu corpo. Percebo que o que quer que tenha acontecido, dentro destas quatro paredes, não passou de libertinagem.

Eu compreendo todos as nuances dessa palavra, eu a conheço, convivi com a "Senhora Libertinagem" por muito tempo, mas isso está e vai ficar no passado.

Eu, mais do que ninguém, entende que acabei de usar minha liberdade, meu livre arbítrio, da pior forma possível. Eu não preservei o senso de respeito por uma carreira que almejo desesperadamente e ultrapassei os limites. Eu acabo de jogar meu futuro no lixo e, infelizmente, não é a primeira vez que isso acontece. Eu faço escolhas erradas. E elas são tão grandes e desastrosas, que não sobra quase nada para recomeçar.

Eu sempre tive sonhos com o Sr. Collins, ou melhor, eu sempre tive sonhos eróticos com o Sr. Collins, porém nesses sonhos não havia o depois. Eu nunca precisei me preocupar com o ato ou consequências do pós-coito.

Pós-coito? Isso lá é jeito de falar, ou pensar? Eu tenho o quê? Cem anos?

Mas, como devo pensar?

Talvez, a palavra correta seja: sexo? Não... Não mesmo!

A palavra correta está mais para: trepada. Isso, agora, sim!

Recapitulando, então: "Eu nunca precisei me preocupar com o ato ou as consequências da trepada".

Jesus Cristo! Eu estou pirando!

Vamos lá, voltando aos meus sonhos eróticos... Como eram apenas sonhos eróticos, a realidade se mostraria cor de rosa e o pecado da luxúria, cometido por nós dois, seria transformado em deleite e satisfação carnal.

Mas o que é que eu estou fazendo? Eu estou filosofando?

A culpa é totalmente minha. Eu sou a mulher dessa relação. Cabe a mim dizer: NÃO! E, se eu não disse é porque eu queria, eu desejava, eu cobiçava.

Eu não possuo amor próprio. Porra!

Sou uma vagabunda!

Ao entrar no banheiro e fechar a porta, eu me sinto totalmente diferente. No espelho, a imagem refletida é de outra mulher, não sou EU. Não pode ser EU. Não me reconheço.

Uma consternação começa a se apoderar das minhas entranhas, enquanto eu mantenho o olhar fixo no espelho. Olhos nos olhos. Um desalento aflito e negro espalha-se como peste perniciosa, como praga silenciosa. Eu estou com medo da imagem refletida, estou com medo do que vejo no espelho e mesmo assim, não tenho forças para desviar o olhar.

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