Marina Castro
O barulho da mala sendo arrastada ecoava pelo corredor da Vila Olímpica. O aroma da comida do refeitório misturava-se ao cheiro de cloro vindo das piscinas. Línguas diferentes se cruzavam no ar, criando um cenário quase caótico - e ainda assim, eu, Marina Castro estava em silêncio.
Segurava o crachá da Seleção entre os dedos como se fosse um escudo.
Na pasta plástica que a comissão técnica havia entregado minutos antes, estava o número do quarto. E o nome da colega de alojamento.
214 - Nezzo / Castro.
Eu parei. O coração deu um tropeço estranho, um reflexo automático de quando o corpo reconhece um perigo. Ou, no caso, um passado não resolvido.
Luzia.
Eu não ouvia aquele nome em voz alta há quase um ano. Não depois do último grito, da última lágrima, da porta batida com força no quarto de hotel em Istambul - e de tudo que veio (ou não veio) depois.
Agora, por alguma decisão aleatória do destino - ou pura crueldade logística do COB -, eu teria que conviver com Luzia Nezzo no mesmo quarto por vinte e dois dias.
Eu respirei fundo, ajustei a alça da mochila nos ombros e começei a andar.
Um passo de cada vez.
•
O quarto 214 era pequeno, funcional, com duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo. As janelas já estavam abertas, e a brisa do verão americano entrava misturada ao som abafado da vila.
Eu entrei devagar. Não queria fazer barulho. Esperava talvez uma mala jogada no canto, uma marca de presença silenciosa.
Mas Luzia estava lá.
Sentada na beira da cama, fones no ouvido, o cabelo preso num rabo de cavalo alinhado. Tinha a mesma postura de sempre - a coluna reta, as mãos inquietas nos joelhos, o olhar perdido num ponto qualquer.
Eu parei na porta, imóvel por alguns segundos. Depois, pirraguiei.
Luzia tirou um dos fones, ergueu o olhar - e pela primeira vez em 362 dias, nossos olhos se encontraram.
Um segundo. Dois. Três.
- Oi. - disse Luzia, com a voz baixa.
Assenti, tentando manter o controle da minha própria expressão.
- Oi.
Silêncio.
- Parece que o COB resolveu brincar de reality show com a gente. - Luzia sorriu, sem humor.
Eu coloquei a mala perto da cama vazia.
- Ou de tortura psicológica.
Mais silêncio.
Nenhuma de nós perguntou como a outra estava. Porque sabíamos que qualquer resposta seria uma mentira e nós havíamos prometido, antes de tudo, nunca mentir uma pra outra.
•
Passei as primeiras horas organizando a mala. Dobrei a camisa da Seleção quatro vezes. Contei os pares de meia. Escondi a foto da família no fundo da mochila. Tudo para não olhar para Luzia.
Já era noite quando Luzia, já de pijama, escovou os dentes e deitou-se com o celular em mãos. Marina desligou o abajur e se deitou de costas para ela, ouvindo apenas a respiração da ex-namorada, agora companheira de quarto.
O teto do quarto parecia rir da situação. Ela fechou os olhos.
E foi quando veio o primeiro flash:
{ Flashback - 1 ano e 11 meses antes }
Era madrugada em Roma. As duas estavam num quarto de hotel, voltando de um jogo tenso contra a Rússia. Marina andava de um lado pro outro, os olhos úmidos.
- Você prometeu que ia me ouvir, Lu. Que a gente ia decidir as coisas juntas.
- Eu preciso aceitar essa proposta. É a chance da minha vida!
- E a nossa vida? O que acontece com isso?
Luzia parou, frustrada.
- Eu não posso recusar só porque você tem medo de mudanças!
- Eu não tenho medo de mudanças. Tenho medo de ficar sozinha.
Silêncio.
Marina deu um passo atrás.
- É sempre sobre você. Seu tempo. Seu treino. Suas metas. Eu... eu tô cansada de não ser prioridade.
Luzia queria responder. Mas não sabia como.
A dor nos olhos de Marina era um espelho - e Luzia não suportava se ver ali.
Naquela noite, Marina arrumou a mala e foi embora. Deixou um bilhete, não uma despedida:
"A gente se ama, mas às vezes amor não basta quando só um lado cede o tempo todo."
{Fim do Flashback}
Marina abriu os olhos de volta no quarto da Vila.
A cama ao lado fazia um ruído leve. Luzia se mexia, inquieta. Talvez sonhando. Talvez também lembrando.
Marina sussurrou, apenas para si:
- E se agora for diferente?
Mas não houve resposta. Só o som da respiração de duas pessoas tentando fingir que nunca foram tudo uma para a outra.
•
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Reencontro-Luzia Nezzo
FanfictionApós um término doloroso, Luzia e Marina, estrelas da seleção brasileira de vôlei, se reencontram nos Jogos Olímpicos. Unidas pelo acaso - ou talvez pelo destino - são obrigadas a dividir o mesmo quarto na Vila Olímpica. Entre lembranças, saudade e...
