Primeiro estágio do amor:
A descoberta.
Eu não sabia que o amor podia ter tantas formas até viver cada uma delas. pensava que amor era uma coisa só: clara, óbvia, acompanhada por música de fundo e finais felizes. mas não é. amor é um campo vasto de nuances, e cada pessoa que passa por nós acende uma luz diferente nesse território escuro.
Com três pessoas eu aprendi o que é amar. com cada uma, uma revelação. mas letícia… foi ela quem me ensinou como o amor pode ser novo, bom e doloroso, tudo ao mesmo tempo.
Foi no primeiro dia de aula que a vi. ela estava sentada na terceira carteira da fileira da janela, curvada sobre um caderno, desenhando com uma concentração quase sagrada. o cabelo ruivo, solto até a metade das costas, caía como uma cortina alaranjada ao redor do rosto. usava óculos com uma armação que fazia seus olhos parecerem ainda mais tímidos. havia uma pinta no buço, e os dedos tremiam levemente enquanto rabiscava, como se a linha do desenho fosse mais segura que a do mundo real.
Aquilo me prendeu. o modo como ela parecia tão distante e ao mesmo tempo tão presente. e eu... eu quis estar ali. quis conhecer aquele universo de traços e silêncios, de gestos delicados e mãos trêmulas. era como se ela escondesse uma história dentro do peito e eu sentisse uma ânsia incontrolável de ouvir cada palavra dela, mesmo que nunca fossem ditas.
No intervalo, sem pensar muito, me aproximei. ela estava sentada sozinha no fundo do pátio, abraçada ao próprio corpo, como se fosse pequena demais para suportar o peso da solidão. sentei ao lado, sem pedir licença. eu estava nervosa — talvez mais que ela — mas disfarcei com uma pergunta qualquer. acho que comentei sobre o desenho. ela mal me olhou. os dedos tremiam mais. mas respondeu com uma voz tão baixa e delicada que meu coração quase parou só pra ouvir.
Aos poucos, dia após dia, ela foi confiando. descobri que se chamava letícia. que gostava de desenhar personagens silenciosas e cenários com chuva. que usava sempre as mesmas roupas largas, como se quisesse se esconder do mundo. e que tremia. tremia toda vez que alguém falava com ela, mesmo que fosse só pra pedir uma borracha.
Mas o que me prendeu de verdade foi o olhar dela quando falava do ex-namorado. não era raiva. era tristeza. uma mágoa silenciosa, como uma rachadura que ninguém vê, mas que dói sempre que se respira fundo. ela se encolhia ao falar dele. dizia pouco, mas era fácil entender o resto no silêncio. ele não a tratava bem, e mesmo assim ela parecia carregar alguma culpa, como se merecesse aquilo.
Foi aí que o afeto cresceu. não como uma flor tímida. foi uma chama. um amor cheio de ansiedade, de desejo de proteger, de estar perto a qualquer custo. mas, ao mesmo tempo, eu tive medo. medo de dizer. medo de que, se eu mostrasse tudo o que sentia, perderia a amizade dela. era a primeira vez que eu queria tanto alguém... mas não para mim. eu queria para o mundo. queria vê-la bem, desenhando em paz, andando sem medo.
E por isso, preferi ficar ali. do lado dela. amiga. só amiga. às vezes era sufocante. eu sonhava com o toque da mão dela, com a forma como ela me olhava quando achava graça de algo que eu dizia. sonhava em segurar aquele rosto entre as mãos e dizer que ela não precisava mais se esconder, que não era culpa dela. mas ficava calada. porque o amor, nesse caso, me ensinava a calar.
Foi a primeira vez que entendi o quanto amar podia doer mesmo sendo tão bonito. eu não queria ser correspondida. de verdade. porque parte de mim achava que, se fosse, estragaria tudo. se ela me olhasse como eu a olhava, talvez a mágica quebrasse. e o que me bastava era tê-la perto. era sentar ao lado e vê-la desenhar. era ouvir sua risada rarefeita quando algo a fazia esquecer da dor.
Letícia me ensinou a amar com delicadeza. um amor que não exige, que não invade, que se contenta com pouco. com um bom-dia, com um bilhete deixado no caderno, com uma troca de olhares no meio da aula. me ensinou que amar não é possuir. que amar é torcer, em silêncio, pela felicidade do outro — mesmo que essa felicidade não nos inclua.
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Descoberta do amor
RomanceEla acreditava conhecer o amor... até que ele a levou por caminhos que ela jamais imaginou trilhar. uma mulher que amou de olhos fechados, sofreu com o coração aberto e, enfim, aprendeu que o amor não é sobre possuir, mas sobre libertar. uma jornada...
