Eros permaneceu parado na calçada, invisível aos olhos humanos, mas completamente vulnerável ao que sentia. A aljava pendia de seu ombro como um peso inútil, e a flecha que havia separado para o próximo casal repousava, esquecida, entre seus dedos.
O nome dela, segundo os registros celestiais, era Clara. Vinte e seis anos. Professora de literatura. Cética quanto ao amor romântico, embora seu coração estivesse cheio de poesia. Um caso difícil - por isso haviam mandado Eros. Casos assim exigiam sutileza, técnica. Distância.
Mas ele não conseguia desviar o olhar.
Ela não era extraordinária no sentido clássico. Não tinha uma aura divina, nem se destacava como as musas com quem ele às vezes cruzava. Mas havia algo em sua presença: uma espécie de luz calma, que aquecia por dentro. Um tipo de beleza que não queria ser notada, e por isso, era impossível de ignorar.
- Não - murmurou para si mesmo, afastando a flecha do arco.
Era contra todas as regras. Cupidos não amam. Eles plantam o amor, nutrem o amor, mas nunca o sentem. Eros conhecia bem a história de cupidos que haviam caído - punidos com o exílio, ou pior, condenados a vagar eternamente entre os mortais, invisíveis até para o amor que desejavam.
Mas então, Clara sorriu para o barista. Um sorriso tímido, mas sincero.
E Eros, num impulso que jamais conseguiria explicar, recuou. Guardou a flecha na aljava, fechou os olhos...
...e desejou, pela primeira vez em milênios, ser apenas humano.
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Seta reversa
FanfictionNunca houve margem para erro no trabalho de Eros - pelo menos, era o que ele gostava de dizer. Entre flechas certeiras, corações acelerados e promessas de amores eternos, o cupido mais promissor da nova geração tinha uma reputação a zelar: nunca se...
