O Nome que Ecoa

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O vento chegava do norte naquele fim de tarde, trazendo consigo o cheiro das folhas queimadas e o murmúrio antigo das árvores. Vale Cinzento, empoleirada entre colinas e cercada por uma floresta de troncos retorcidos, parecia um lugar esquecido pelos mapas. Havia apenas uma estrada de terra que levava até lá, serpenteando por entre pinheiros altos como vigias silenciosos.

Sara Bennet, aos dezessete anos, caminhava com a cesta de pães nas mãos, os olhos sempre abaixados. As pedras da trilha principal pareciam sussurrar sob seus pés, e ela as escutava como quem aprende um idioma que não pode confessar que entende.

A vila inteira cheirava a fumaça, lã molhada e silêncio. As pessoas não falavam com ela se não fosse necessário. Seus cabelos castanhos escuros, quase negros sob a luz, estavam sempre soltos, e o olhar — um âmbar puxado para o violeta sob o sol certo — causava desconforto nos que acreditavam em histórias demais.

Ela era diferente. E ali, ser diferente era um tipo de ameaça.

— O pão está fresco, senhor Tamlen — disse, estendendo a cesta para o velho que cuidava da pequena estalagem na beira da praça.

Ele resmungou algo inaudível, sem olhar em seus olhos. Pegou os pães com pressa e jogou três moedas na palma da mão dela, como quem se livra de uma dívida.

— Que os ventos levem a noite sem mácula — murmurou, o olhar perdido no chão. Era uma saudação antiga, de proteção. Sara sabia disso.

— E que retornem sem trazer ruína — respondeu, por hábito, mas a frase fez o velho estremecer. Era a continuação do dito, porém poucos a usavam.

Voltando para casa, Sara sentia os olhares. Eram sempre assim: vislumbres rápidos por detrás das janelas, cochichos abafados. Sua mãe, Elen, dizia que era por inveja. "Temem o que não entendem", repetia. Mas nunca entrava em detalhes. Nunca falava do passado. Nunca mencionava o pai.

A casa delas ficava na borda da vila, quase entrando na floresta. Era uma construção simples, de pedra cinzenta e madeira antiga, com uma chaminé sempre acesa. Elen era uma mulher de poucas palavras, cabelos presos num coque severo, mãos calejadas de cuidar do forno e do silêncio.

Naquela noite, enquanto Sara ajudava a mãe a separar ervas secas, algo pareceu diferente. O céu, sem nuvens, estava mais claro do que deveria. A lua ainda não havia subido, mas o ar parecia... carregado.

— Mãe — disse Sara, olhando pela janela —, você sente isso?

Elen levantou os olhos. Por um segundo, hesitou. As mãos pararam de se mover sobre os ramos de arruda e alfazema. Depois, como quem se corrige, ela continuou.

— O vento muda com as estações — respondeu. — Só isso.

Mas Sara sabia que não era só isso.

Naquela mesma noite, acordou com os dedos formigando. Um sonho estranho ainda pesava sobre os olhos: ela estava em pé sobre um lago escuro, o céu cheio de estrelas girando devagar, e ao seu redor, símbolos que ela não sabia ler — mas compreendia. A água refletia uma silhueta que não era inteiramente sua. Algo nela brilhava em roxo, um pulso de luz silenciosa no peito.

Acordou com um leve susto. O quarto estava frio. A vela apagada.

No escuro, sentiu algo vibrando de leve nas pontas dos dedos. Levantou as mãos... e por um segundo, jurou ver faíscas violetas dançando entre elas. Mas quando piscou, tudo se foi.

Pela manhã, decidiu não contar à mãe.

No caminho da fonte, onde ia buscar água, cruzou com o velho Arlem, o ancião mais antigo da vila. Ele estava parado diante do poço, encurvado sobre sua bengala de teixo, olhos opacos, mas fixos nela.

— O sangue ecoa mais forte este ano — murmurou ele, quando Sara se aproximou. — As raízes tremem. E você... você é filha do sangue antigo.

Sara parou. O balde escorregou um pouco em sua mão.

— O quê?

O velho a olhou, como se finalmente a visse de verdade.

— Você. A que caminha entre véus. A que ouvirá o fio do mundo.

Antes que ela pudesse perguntar mais, Elen apareceu subitamente. Surgiu entre as casas como uma sombra veloz, o rosto mais pálido do que Sara já tinha visto.

— Vamos — disse, pegando o braço da filha com força. — Já falei para não dar ouvidos às tolices dele.

— Mas mãe, o que ele quis dizer com "sangue antigo"?

— Chega.

Havia um tremor em sua voz. Não era raiva. Era medo.

De volta à casa, o silêncio caiu como uma manta pesada. Sara quis perguntar, insistir, mas o olhar da mãe era um muro. Um de muitos.

Naquela noite, escreveu em sua caderneta, em letras pequenas:

"Filha do sangue antigo. A que ouve o fio. Por que essas palavras me soam tão certas?"

Enquanto apagava a vela, sentiu novamente o formigamento leve nos dedos.

E no instante antes do sono vencê-la, um sussurro pareceu surgir do escuro, como se o próprio vento passasse por dentro dela.

"Bennet..."

Seu nome. Mas dito como se não fosse apenas dela. Como se fosse o eco de algo que dorme há muito tempo.

A TecelãWhere stories live. Discover now