Capítulo 1 – Noite Sem Volta
Copacabana, 1958.
A cidade já dormia quando a angústia tomou conta da casa de Anita. O relógio da sala batia as dez e meia da noite. A luz da cozinha ainda acesa. O ensopado no fogão começava a queimar. E ela... não voltava.
Alfredo, de camisa branca com as mangas dobradas e gravata pendurada no pescoço, passava pela casa como um leão enjaulado. Tinha ido à delegacia, voltado, rodado a vizinhança inteira. Nada. Nenhuma pista.
— Ela saiu pra comprar pão e fubá na venda da Rua Duvivier, coisa de vinte minutos, trinta no máximo... já vai fazer três horas! — disse ele em voz alta, sozinho na cozinha, como se falando alto fosse acordá-la de algum pesadelo.
Na sala, Guto, de dezessete anos, estava encolhido no sofá, com os olhos fundos e a respiração curta.
— Isso não é normal... a mãe nunca faria isso. Nem com febre, nem com raiva, nem por birra.
— Eu sei, filho. Eu sei.
Alfredo parou ao lado do garoto. Passou a mão pelos cabelos dele, um gesto raro — respeitava os limites de Guto, que ainda carregava o peso de ter Nelson como pai.
— Te prometo, Guto. Eu vou encontrar tua mãe. E quem fez isso... vai pagar.
Guto assentiu. Mas o medo era maior que a raiva. Por dentro, ele já sabia. Aquele sumiço tinha o nome do Nelson escrito em letras maiúsculas.
Em algum lugar do subúrbio carioca.
Anita acordou com a cabeça latejando e o cheiro ácido de gasolina no ar. Estava em uma sala escura, com paredes úmidas e cortinas encardidas. Amarrada pelo pulso a uma cadeira de madeira. A boca seca. O corpo dolorido.
E lá estava ele.
Nelson.
O mesmo olhar arrogante. A mesma postura de homem "feito". Paletó amarrotado, sapato lustrado, cabelo engomado. E aquele maldito sorriso de canto de boca que sempre vinha antes de uma grosseria.
— Finalmente acordou, meu bem.
Anita cerrou os olhos, tentando controlar a náusea. A voz dele ainda causava um arrepio ruim na espinha.
— O que você fez, Nelson? Me sequestrar? Você pirou de vez?
Ele acendeu um cigarro com o isqueiro de prata e deu de ombros.
— Eu te trouxe pra conversar. Só isso. O jeito antigo não tava funcionando. Você vive cercada daquele almofadinha do Alfredo, daquele cachorro velho da Laika e dos seus dois moleques me olhando como se eu fosse um monstro.
Ela cuspiu:
— Porque foi exatamente isso que você sempre foi. Um monstro! Egoísta, grosso, abusado... só sabia se fazer de homem de negócio e me deixar sozinha com duas crianças no colo!
— Você sempre exagera — resmungou, tragando fundo. — Eu nunca deixei faltar comida...
— Comida? Só se for a que eu fazia com o que a vizinha dava. Você tava enfiado em mesa de bar com cheque sem fundo e agiota no cangote! E quando chegava em casa, queria jantar pronto, mulher calada e criança dormindo!
Nelson apertou os olhos.
— Eu vim aqui estender a mão, Anita. Tô num aperto. Os agiotas tão no meu calcanhar. Eu perdi tudo, tudo... só me sobrou minha inteligência. E você.
Ela riu, amarga.
— Eu? Me sobrou o trauma, Nelson. A vergonha de ter passado anos presa numa gaiola com você. Me sobrou a luta de reconstruir minha vida, criar o Guto e o Edu com dignidade. E quando a vida quis ser boa comigo, mandou o Alfredo. E você quer que eu jogue tudo fora?
— Ele não te conhece como eu.
— Graças a Deus! O Alfredo me respeita. Me escuta. Me trata com carinho, com admiração... coisa que você jamais soube fazer. Eu não troco esse amor por ouro, muito menos por tua lábia furada.
Nelson ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou devagar, quase como uma ameaça:
— Olha... eu pensei numa coisa. A gente pode fazer o seguinte. Você me ajuda a arrancar um dinheiro daquele paspalho. Eu sumo. Você segue a vida. E ninguém se machuca.
— Você tá dizendo que quer que eu traia o Alfredo?
— Não precisa chamar assim. É só uma transação. Uma ajudinha. Com os documentos certos, eu posso sacar um valor bonito no nome da empresa dele. Ele nem vai notar...
Anita arregalou os olhos.
— Eu jamais faria isso. Por mil razões! Primeiro, porque eu amo o Alfredo de verdade. Segundo, porque eu me respeito. Terceiro, porque você é um nada na minha vida. E quarto — e mais importante —, porque eu quero que meus filhos se orgulhem de mim. E não que tenham vergonha da mãe que se vendeu pro pai pilantra!
Nelson se aproximou, os olhos apertados de raiva.
— Então vai ser assim?
— Vai. Me amarra. Me prende. Me ameaça. Mas você não tem mais poder sobre mim. Acabou, Nelson.
Ele soltou uma risada seca e apagou o cigarro no cinzeiro com violência.
— Então tá. Mas lembra... o tempo tá passando. E os teus filhinhos não vão ficar protegidos pra sempre.
De volta a Copacabana.
Alfredo estava no quarto de Anita. Sentado na beira da cama. O lenço com perfume dela entre os dedos. Um retrato de dias felizes na penteadeira. O cheiro de lavanda e polvilho. E o vazio enorme em seu peito.
Ele apertou o lenço contra o rosto, os olhos marejados.
— Bolinho... minha bolinho... onde você tá?
Suspirou fundo, olhando o teto.
— Cê me ensinou a amar, sabia? Eu não sabia que dava pra amar desse jeito. Amar a ponto de sentir dor só de imaginar teu rosto triste. Amar a ponto de cuidar dos teus filhos como se fossem meus... e eu faria isso tudo de novo. Tudo.
Um barulho de telefone ao longe. Alfredo se levantou de súbito, esperançoso.
Mas era engano.
Mais um.
A noite se arrastava. E o dia seguinte viria com sangue nos olhos. Porque Alfredo Honório não descansaria enquanto não trouxesse sua bolinha de volta.
E quem tivesse metido a mão nela... ia se arrepender.
